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Jornal Comunica Ação Espírita | 139ª edição | 05 de 2020.

Palavra dos Espíritos e dos espíritas

Por Wilson Czerski

A fatalidade existe ou não?

 

Nesta edição elegemos a fatalidade como o assunto desta seção. Não é muito fácil, mas tentaremos isolá-lo de outros que estão diretamente ligados a ele como determinismo, destino, lei de causa e efeito e livre-arbítrio dos quais iremos tratando ao longo do tempo.

Primeiro os dicionários. Fatalidade é a “sorte inevitável; destino; acontecimento funesto; infortúnio, desgraça”. Segundo a doutrina do fatalismo “o curso da vida humana está previamente fixado”. Como acima, a fatalidade pode ser tomada como sinônimo de destino e este seria “a sucessão de fatos que podem ou não ocorrer, e que constituem a vida do homem, considerados como resultantes de causas independentes de sua vontade; sorte; aquilo que acontecerá a alguém no futuro...”, no fatalismo a vontade em nada pode interferir.

Muitas informações a respeito estão disponíveis nas Obras Básicas, notadamente em “O Livro dos Espíritos”, questões 851/854; 859/861; 866, e outras. Recomendamos a atenta leitura das mesmas. Aqui vamos nos restringir a informações de outras fontes como da Revista Espírita, em duas de suas edições. 

Na primeira,[1] lemos: Há leis gerais a que o homem está fatalmente submetido; mas é erro crer que as menores circunstâncias da vida sejam preparadas de antemão de maneira irrevogável... Os que são fatais são os que são independentes de sua vontade... não há fatalidade...O homem tem, pois, um círculo no qual pode se mover livremente... A outra citação[2]: O Espiritismo jamais negou a fatalidade de certas coisas... a natureza tem suas leis fatais... fatalidade que preside o conjunto... 

Agora Léon Denis[3]. Ele é, no mínimo, algo contraditório. A certa altura ele escreve que “... pode-se sempre atenuar, modificar a sorte...”. Páginas antes (p. 280), porém, ele afirma que “Todo mal feito, o sangue vertido e as lágrimas derramadas recaem cedo ou tarde, fatalmente (grifo nosso) sobre seus autores – indivíduos ou coletividades”.

Reforçando o anterior, mais adiante ele reitera que “todo mal se resgata pela dor” e em outra de suas obras[4],  opina que “a pena de talião nada tem de absoluto, mas (...) nada, a não ser a expiação, apagará as nossas faltas”. Então, algum tipo de expiação é inevitável, portanto, fatal.

 

Para Simonetti, não há dia certo para a morte 

Passemos agora às palavras do escritor Richard Simonetti, desencarnado no ano retrasado, e um dos mais lúcidos pensadores espíritas contemporâneos. 

A morte, diz ele,[5] é uma fatalidade, mas não há dia e hora marcados para ela nos levar... todos temos uma programação biológica para viver de 80 a 100... podemos chegar lá ou morrer antes devido às contingências da Terra. Contingência, ensina, é o que pode acontecer não como manifestação da vontade de Deus, mas decorrente das ações humanas. E cita exemplos: um serial killer, bombas no Iraque. As mortes não ocorreram porque teria chegado suas horas. Se assim fosse os autores estariam justificados; seriam instrumentos de Deus. 

Provocado a comentar as palavras de Jesus de que “não cai um pássaro do céu sem a vontade de Deus”, ele explica que “convém interpretar essa vontade como consentimento” e não uma determinação. E sobre a reunião de centenas e até milhares de pessoas para mortes em acidentes, ele apela para a lógica ao falar da logística que seria necessária por parte dos espíritos.

E quanto aos japoneses vitimados em Hiroshima e Nagasaki, durante a II Guerra Mundial, os quais, segundo o pensamento de muitos espíritas, teriam débitos semelhantes, reencarnaram todos lá e foram reunidos no dia e hora, Simonetti ironiza que, então, os americanos deveriam ter recebido alguma “divina inspiração” e pede para substituirmos o “olho por olho” pelo “amor que cobre uma multidão de pecados.” 

Por falar nisso, o historiador austríaco Erik Durschmied, no livro "Fora de Controle - Como o Acaso e a Estupidez Mudaram a História do Mundo"[6] afirmou que "a decisão de lançar a primeira bomba atômica sobre Hiroshima foi fruto do acaso. O mau tempo poupou outras cidades. Por um capricho da natureza, uma cidade foi escolhida para ser destruída”. Para refletir à luz do que conhecemos.

Voltando ao Simonetti[7], resumidamente, assim ele comentou o naufrágio do Titanic em 1912 que matou 1518 pessoas. As causas foram a desonestidade (aço de má qualidade, imprudência e incompetência), velocidade excessiva em meio a icebergs e manobra errada com reversão de máquinas jogando-o contra o gelo. Portanto, não foi fatalidade porque poderia ser evitado.

Segundo ele, as vítimas não estavam pagando dívidas. E comparou: se alguém comete um delito, é condenado e na prisão é agredido, assassinado, é só consequência do primeiro evento, mas não uma imposição do destino de caráter cármico.

Para ele, as mortes não estavam "escritas". A maioria das vítimas estava na 3ª classe (pobres). Então a discriminação foi a causa. É fantasioso supor que entre os pobres o maior número era de "pecadores". De nosso lado, apenas questionaríamos se essa condição de pobreza não poderia ser uma prova ou expiação? 

Perguntado sobre a queda da folha de uma árvore sem a vontade de Deus, respondeu que não se trataria de vontade, mas de consentimento. 

Para encerrar, algumas reflexões sobre a ‘fatalidade do instante e gênero de morte’. Bem conhecemos o constante na questão 851 de OLE. No meu livro “Destino: determinismo ou livre-arbítrio?” (Editora EME), conforme o próprio título, tive a oportunidade de discorrer longamente sobre o assunto em pauta e, claro, tópicos especiais como A hora, Antecipações,. Moratórias ou dilatações do tempo de vida, Os gêneros de morte, Os erros médicos, Homicídios e acidente, Balas perdidas, Mortes coletivas, O Titanic, O tsunami da Ásia, As torres gêmeas e o 11 de Setembro, As “coincidências” que salvam e as que matam e O holocausto.

O espaço não comporta acréscimos. Somente convido o prezado leitor a pensar um pouquinho agora. Se dia e hora estivessem marcados e o gênero de morte fosse por acidente de automóvel, de que adiantaria pedir proteção espiritual antes de fazer uma viagem visto que ela ocorrerá com a prece ou sem ela? 

E quanto ao tratamento aos doentes? E se pelo livre-arbítrio o enfermo lutar ou deixar de lutar contra a enfermidade? Registre-se que o próprio OLE esclarece que os cuidados tomados para evitar a morte fazem parte da sua preservação. Sem eles, a desencarnação poderia acontecer antes.

Certa vez o Espírito Verdade comunicou um aviso a Kardec a respeito dos sacrifícios que lhe haviam sido impostos na tarefa da Codificação Espírita: “... e mesmo de tua vida porque sem isso viveria muito mais tempo...”. 

Onde ficou a fatalidade do instante da morte? Para os missionários seria diferente? Então a regra tem exceções. 

 

[1] KARDEC, Allan. Revista Espírita. Vol. 1866, maio. 1ª ed. Brasília, 1985, p. 154;

[2] KARDEC, Allan. Revista Espírita. Vol. 1868, julho. 1ª ed. Brasília, 1985, p. 195;

[3] DENIS, Léon. O Problema do Ser, do destino e da Dor. 13ª ed., Rio de Janeiro: FEB, 1985, p. 346;

[4] DENIS, Léon. Depois da Morte. 15ª ed., Rio de Janeiro: FEB, 1989, p. 239;

[5] Revista Internacional de Espiritismo. Matão-SP: O Clarim, setembro/2007;

[6] O Imortal. Cambé-PR, fevereiro/2004;

[7] Revista Internacional de Espiritismo.  Matão-SP: O Clarim, abril/1998.

 

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