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Jornal Comunica Ação Espírita | 142ª edição | 11 de 2020.

Pasteurização e Pastorização do Espiritismo

Por Marcelo Henrique Pereira

 

Jorge estava há pouco mais de ano participando de certa instituição espírita. De formação presbiteriana, aos poucos foi despertando o interesse por questões metafísicas. A morte de um amigo de infância, muito próximo, levou-o a procurar, primeiro pela internet, algumas respostas. Ter presenciado, também, uma ou outra manifestação espiritual – até mesmo em uma reunião da Igreja – era o mote para suas buscas.

Frequentador habitual, aos poucos foi deixando de comparecer ao culto no domingo. Preferia as palestras, duas vezes na semana e os estudos de “O livro dos Espíritos”. O dirigente do grupo, experiente, na faixa dos 65 anos de idade, deixava todos muito à vontade e também trazia interessantes sugestões (um blog, um site, um vídeo de palestra).

Certa feita, viu no mural um convite para uma palestra de um renomado orador. Já haviam comentado sobre ele, antes ou depois das reuniões. Naquela noite, o coordenador fez menção ao evento e apontou para o cartaz. Viu-se interessado. Os dias foram passando em agradável expectativa. Seria a primeira oportunidade de conhecer um “expert” em Espiritismo, com uma trajetória e bagagem invejável de leitura e de experiências. Combinou com alguns colegas do grupo para se encontrarem em local próximo ao da conferência e irem juntos.

O salão, de tamanho considerável, um auditório de instituição governamental, bonito e aconchegante, ficaria lotado. Após a “prece de abertura” e as apresentações de praxe, entregaram-lhe a palavra. Era simpático e seus olhos, bem abertos e sobressaltados, causavam certa surpresa. Gesticulava muito, com trejeitos até exagerados – pensou, mas nada disse. A voz, de início, macia e suave, ganhava dramaticidade, nas situações de pesar ou dor, por ele relatados, e empolgação para outras, mais jocosas, ambas entremeadas a citações evangélicas.

Por um minuto, pensou estar na Igreja que, desde a infância, havia frequentado. Se cerrasse os olhos, visualizaria algum pastor de fora, nas celebrações especiais, que visitava o templo da cidade. Era ele, também, àquele tempo, a “atração” do momento e os fiéis gostavam de ouvir alguém diferente na exortação da fé.

Mas não o era. Era uma assembleia espírita! E embora houvesse muitas pessoas, ali, com alguma ligação com a religião que herdaram dos pais ou a que conheceram em fases da vida, estranhou. Esperava algo diferente. Entendia que a religiosidade era algo de foro íntimo, apenas. Então, o contentamento dos primeiros momentos foi dando lugar à estupefação e à perplexidade... O “pastor” espírita parecia “doutrinar” – diriam “evangelizar” – a multidão daquele recinto. Olhou para um lado, para o outro, para a frente, para trás, e viu pessoas embevecidas, “sorvendo” cada uma das palavras ditas. Uns choravam, ante um relato triste, e muitos gargalhavam das piadas ditas, coisa incomum para uma reunião de elevação de pensamentos, seguida de alguns burburinhos, que faziam o palestrante aguardar o momento de calmaria, para prosseguir. Isto o incomodou sobremaneira.

A expectativa deu lugar à frustração. Nem ele entendia o nexo entre as fábulas contadas com as citações de trechos bíblicos, muitas do Velho Testamento. Mais surpresa teve quando ouviu, várias vezes, o orador pronunciar: “NOSSO SENHOR Jesus Cristo”, ou “segundo o evangelista SÃO Mateus”, ou “para SÃO João”, etc.

Após a palestra, seus colegas “de centro”, encantados, repetiam trechos mais divertidos ou impactantes ditos pelo palestrante. Não conseguiu comentar nada. Apenas sorriu, amarelo, perplexo ante a concordância tácita, passiva, quase de adoração, de praticamente todos. Despediu-se, quase sem sorrir. E se foi conversando consigo mesmo. Se lhe perguntassem sobre seu estado de ânimo, diria estar em amarga tristeza. Desde que ouvira, pela vez primeira, os princípios espíritas para entender a morte do amigo querido, meses depois, do fatídico acidente de moto que o vitimou, Jorge não se lembrava de igual agonia. O motivo, agora, era outro. Não mais a perda do amigo, mas, agora, a perda do norte lógico-racional que o Espiritismo representava para si. E isto não apenas pela forma de expressão daquele palestrante, mais pela aquiescência de seus colegas de trabalho espírita, para com tudo aquilo.

Na reunião de estudos, comentou-se sobre o evento. E o Coordenador mencionou que, em face do sucesso do “formato” por ele adotado, muitos outros palestrantes lhe copiavam os trejeitos, a entonação de voz e as historietas e as citações evangélicas. Clones do orador, disse o dirigente, jocosamente. Ou covers, imitadores da forma e do conteúdo, inclusive com a repetição da exibição de vídeos em DVDs adquiridos em feiras do livro ou nos próprios eventos com o “superstar” espírita. Uma espécie de pasteurização, onde se copia o padrão que agrada, que “vende”, que provoca cumprimentos, elogios e afagos.

Jorge ficou a meditar, calado. Diante dos elogios, o dirigente apenas sorriu. Ele não havia estado presente à conferência, mas sabia o enredo e a performance. Em dado momento, fitou Jorge que o olhava, perplexo. E um leve balançar de cabeça, com uma sutil negação, seguido de uma expressão que ele entendeu, pareceu-lhe dizer: “perdoa-os Jorge! Eles, ainda, não sabem o que dizem ou o que fazem!”. Jorge, pelo menos, foi para casa e ao deitar a cabeça no macio travesseiro, sossegou – pelo menos naquele instante – a sua indignação. Não estava, ele, sozinho! Havia – e há muito – o que fazer...

 

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