ADE-PR: Associação de Divulgadores do Espiritismo do Paraná

Especial

Marca de nascença no menino Ian é evidência a favor da reencarnação. Assista o vídeo clicando aqui.

Jornal Comunica Ação Espírita | 72ª edição | 03 de 2009.

A mediunidade é um dom universal, não pertence só ao Espiritismo e todos somos médiuns em algum grau.

Por Wilson Czerski

A mediunidade é o princípio fundamental do Espiritismo pelo qual ele é mais conhecido a ponto de o leigo tomar o vocábulo espírita como sinônimo de ‘evocador de mortos’, o que, naturalmente, é um grande equívoco.

Apesar de todos os esforços de esclarecimento promovidos pelo Movimento Espírita, principalmente pelos livros e Centros Espíritas, o assunto é cercado por muita desinformação decorrente da falta de oportunidade ou desinteresse em conhecê-lo ou devido às manipulações de consciências perpetradas por lideranças de outros segmentos religiosos interessados em manter a ignorância e disseminar a confusão dos seus seguidores.

A possibilidade de se comunicar com os espíritos não é exclusividade dos espíritas. Fácil constatar que todos somos médiuns em grau variável desde uma simples intuição até a produção de livros ou movimentação de objetos. Em todos os tempos e lugares, no seio de todos os povos e culturas, inspirada pelo culto dos antepassados ou necessidade de se recorrer a ‘intermediários de Deus’, a mediunidade sempre existiu. Na Índia, no Egito, na Grécia, na China e Tibet, entre hebreus no Velho e Novo Testamento, na Rússia, entre os indígenas e na África, sempre houve a presença das sibilas e pitonisas, dos profetas e adivinhos, sacerdotes e pajés.

Durante milênios, envolvida pelo mistério, longe dos olhos das pessoas comuns e só revelada aos iniciáticos, foi fonte de poder e vantagens. Dos rituais secretos aos oráculos ambíguos, das profecias bíblicas a Nostradamus, da exaltação fanática às superstições e crendices mais ingênuas, da santificação de uns às fogueiras para outros, o diálogo com os mortos sempre despertou curiosidade e mais medo do que respeito.

Somente com o surgimento da Doutrina Espírita em meados do século XIX, por iniciativa dos Espíritos que ofereceram à humanidade, justamente pelos canais mediúnicos, os primeiros informes teóricos acrescidos da demonstração prática do fenômeno, consumada pelas próprias e inquestionáveis manifestações e, a seguir, a sistematização destes conhecimentos por Allan Kardec, é que a mediunidade passou a ser estudada em todas as nuances e consequências.

Esta mudança radical na forma de entender e praticar a mediunidade, teve início em março de 1848 num vilarejo norte-americano chamado Hydesville, próximo de Rochester, no estado de Nova Iorque. O espírito de um mascate assassinado e enterrado no porão da casa pelo antigo proprietário, entabulou um diálogo com duas meninas de 12 e 14 anos, filhas do casal Fox.

Isto ocorreu apenas duas décadas após o encerramento oficial da vigência da Santa Inquisição na Espanha, último país a tomar tal providência. Como se sabe a Inquisição foi responsável por mandar milhares de pessoas às fogueiras acusadas de bruxaria só por terem a aptidão de ver ou falar com os espíritos.

Verdade que não bastam decretos para banir das mentes a ignorância e o fanatismo como se pôde testemunhar em 1861 no chamado Auto-de-fé de Barcelona quando quase 500 livros espíritas foram incinerados por ordem do bispo local, num gesto de intolerância e autoritarismo típico da Idade Média.

Hydesville foi palco de diversos ‘diálogos’ entre o espírito de Charles Rosma – cuja ossada foi descoberta alguns anos mais tarde quando da demolição da casa – e Kate e Margareth Fox através de pancadas nas paredes, móveis e assoalho. Uma pancada significava ‘sim” e duas ‘não’. Mais tarde o método seria aperfeiçoado fazendo-se correspondência entre o número de pancadas e a sequência alfabética.

Os raps eram audíveis a todos os presentes e isso, aliado a uma observação mais completa, afastava a hipótese de alucinação ou fraude. Aliás, pelo menos duas investigações efetuadas por comissões constituídas por autoridades e pessoas sérias da comunidade resultaram na confirmação da autenticidade da ocorrência sem que se pudesse aventar qualquer outra hipótese para explicá-la que não fosse a manifestação da alma de alguém que já não dispunha do corpo carnal, mas mantinha sua consciência, memória e todos as demais características da personalidade.

Seis anos depois, o professor francês Hyppolite Leon Denizard Rivail que adotou o pseudônimo de Allan Kardec, foi atraído para o estudo das mesas que ‘saltavam’ e ‘dançavam’, as chamadas mesas girantes. Destes estudos sérios e metódicos, em 1857 veio a lume O Livro dos Espíritos que já continha a descrição básica de toda a fenomenologia mediúnica. Mas foi em 1861, com a publicação do segundo volume da denominada Codificação Espírita que o assunto pôde ser abordado de forma integral. O Livro dos Médiuns é um trabalho grandioso de observação, compilação, classificação e metodologia recomendada à prática, referente não só às comunicações ostensivas entre os mundos dos chamados vivos e os que já deixaram a terra pelas fronteiras da morte física, mas abrangendo toda a influência recíproca que ocorre na interação social dos habitantes destas duas dimensões da vida.

Reproduzimos, especialmente para os que nunca sequer manusearam esta obra, a sequência resumida dos assuntos ali tratados. As “Noções Preliminares” trazem tópicos como a existência dos Espíritos, o perispírito ou corpo espiritual - essencial à realização dos fenômenos mediúnicos -, a ação da mente sobre a matéria; a dissolução do maravilhoso e sobrenatural pela compreensão da naturalidade dos fenômenos; a convergência das provas, as leviandades dos críticos e o método utilizado por Kardec. Depois o exame das hipóteses de charlatanismo, loucura e alucinação, além de possíveis causas físicas, origem demoníaca, etc.

Nos capítulos seguintes a teoria que explica como se dão as manifestações físicas dos espíritos. Informa sobre os médiuns curadores, a levitação, o animismo, os espíritos falantes. Segue com os tabus e preconceitos, as aparições, os sonhos, a transfiguração e bicorporeidade, locais assombrados, tipos de comunicação conforme o caráter dos mensageiros, a escrita e voz direta e a psicografia.

Depois vêm a imensa variedade de médiuns, a recomendação de sua formação, os inconvenientes e perigos da prática mediúnica, o papel desempenhado pelo médium no fenômeno, a influência moral do médium e a do meio. A mediunidade nos animais também é contemplada assim como a obsessão e o problema da identificação dos espíritos que se comunicam, as evocações e perguntas que podem ser feitas.

E volta a discorrer sobre as mistificações, charlatanismo e prestidigitação, preocupação sempre presente na mente e no trabalho do Codificador que desejava ficasse bem clara a separação do joio e do trigo, entre os fenômenos autênticos obtidos por médiuns sérios e honestos e os forjados objetivando o engano ou interesse pecuniário, obviamente por obra de pessoas inescrepulosas.

Infelizmente ainda hoje há muitos aproveitadores da ignorância alheia que se utilizam dos princípios e conceitos espíritas para rotular apresentações que beiram ao grotesco. Portanto, as recomendações incisivas de Allan Kardec continuam oportunas e necessárias para evitar que as pessoas de boa-fé sejam iludidas e lesadas.

Em o Livro dos Médiuns, Kardec não se ocupou em explicar o fenômeno mediúnico do ponto de vista da fisiologia cerebral talvez porque não lhe ocorresse a importância desta interação espírito-matéria. Ou porque os conhecimentos da época a respeito da estrutura e funcionamento do sistema nervoso nos seres humanos ainda não permitisse adentrar esta área. Preferiu esmiuçar o papel do perispírito na sua função de intermediário no trânsito da mensagem que parte do agente emissor, no caso, o espírito desencarnado, até o receptor, o médium.

À luz dos conhecimentos proporcionados pela Metapsíquica e da Parapsicologia que a sucedeu, percebemos que na mediunidade estamos diante de um transe cuja gênese fundamental é a mesma que rege, de um lado, a hipnose e até certo ponto o sono e o coma e, de outro, os demais tipos de transes como o farmacógeno.

O transe nada mais é do que um estado alterado de consciência, intermediário entre o sono e a vigília. O rebaixamento da tensão psíquica com a consequente inibição do córtex cerebral, favorece as manifestações provenientes das estruturas subcorticais mais profundas ou do inconsciente, inclusive as PSI - Personalidade Integral Subconsciente.

Os transes variam em extensão e profundidade o que determina o grau de consciência preservado durante os mesmos e se dividem em patológicos, provocados e espontâneos. É a este último grupo que pertence a mediunidade, embora a utilização de ervas, álcool, incensos que funcionam como indutores no transe farmacógeno, possibilitem que este também derive para a manifestação de entidades desencarnadas.

Aliás, convencionou-se denominar de mediunidade qualquer tipo de influência mais acentuada de um espírito sobre um indivíduo encarnado. Porém, do conceito amplo, José Herculano Pires especifica o mediunismo e o mediunato. No primeiro, o intercâmbio com os espíritos é realizado de modo empírico, sem qualquer cuidado com o ambiente psíquico da reunião e com os objetivos da mesma. Já o mediunato seria a elevação da prática mediúnica ao nível de um ato missionário ou, pelo menos, um exercício de amor e caridade, instrumento de ascensão espiritual que exige uma conduta ética irretocável. A mediunidade deve ser exercida com seriedade e respeito, afastada de tudo o que sugira curiosidade, interesses pecuniários, exploração da fé alheia e desejo de promoção pessoal.

Os médiuns podem ser facultativos ou involuntários. Enquanto estes muitas vezes sequer têm consciência da faculdade que dispõem e não controlam as suas manifestações porque não foram educados para tal, os facultativos apresentam as melhores condições de torná-la produtiva e útil para si e para os outros. Estudam-na em todas as nuances e são capazes de disciplinar as circunstâncias em que convém ceder o aparelho físico para servir de intermediário aos mensageiros desencarnados.

Já os fenômenos mediúnicos, quanto à forma de expressão, dividem-se em de efeitos físicos e intelectuais. Nos primeiros temos a levitação, o transporte de objetos, a escrita sem intervenção da mão do médium, a produção de luzes e sons, a materialização de objetos, animais ou pessoas, as curas magnéticas e mesmo as invasivas do paciente e muitos outros tipos.

Os fenômenos de efeitos intelectuais mais conhecidos são a psicofonia (comunicação oral), psicografia (escrita), a vidência, a pintura e a música transcendentais, a xenoglassia (falar e/ou escrever em línguas desconhecidas), as premonições, inspirações e intuições. Em meio a estes todos, às vezes, confundindo-se com eles, estão os fenômenos anímicos. Entendidos como os originários da própria mente ou alma do sensitivo que deixa derramar para o consciente conteúdos latentes adquiridos em vidas pretéritas. Nesta classe temos a clarividência e clariaudência, a psicometria (espécie de vidência mediante o contato com um objeto ou lugar) e podem se repetir aqui algumas curas e a intuição.

Não podemos deixar de mencionar a Transcomunicação Instrumental – TCI que, ao contrário da TCM – Transcomunicação Mediúnica -, possui como característica essencial o fato dos espíritos comunicantes servirem-se de instrumentos materiais e não do corpo do médium para se expressar. Entre os mias comuns estão o rádio, a Tv, o telefone e secretária-eletrônica e o computador.

É este o processo mais promissor em termos da comprovação científica da mediunidade. As comunicações das almas daqueles que já partiram para a vida espiritual usando aparelhos eletrônicos que podem ser submetidos mais facilmente aos rigorosos métodos de controle funcionam como poderosos e convincentes argumentos a favor, primeiro da sobrevivência das almas e, segundo, da demonstração insofismável de que estas mesmas almas podem se comunicar com aqueles que por aqui permanecem, seja para consolá-los, esclarecê-los e, mesmo, conforme sua índole, perturbá-los.

Mas a mais conhecida forma de intercâmbio entre encarnados e desencarnados, continua sendo com os médiuns. Escrevemos na edição passada sobre a Grafoscopia como método científico de comprovação da presença e identificação de espíritos como autores de cartas e livros. Traços de caráter, moralidade e desenvolvimento intelectual, além de particularidades pessoais menores, mas importantíssimas para o reconhecimento de personalidades, também podem ser percebidos nestes tipos de comunicação e nos traços de um quadro, no estilo musical de uma peça ou visão de aparições, fotografias e tato de formas tangíveis como teve o privilégio de fazer William Crookes com Florence Cook, a médium, e Katie King, o espírito que se deixava tocar, medir e pesar, além de falar.

Reprisamos que a mediunidade destina-se a execução de tarefas nobres de construção da felicidade individual e coletiva. Não faz do seu portador um ser especial que deva ser idolatrado por mais extensas e belas sejam suas capacidades de intercâmbio com o plano espiritual. Por outro lado, não é um fardo, embora a sua posse, eventualmente, possa representar uma necessidade expiatória, mais comumente provacional e até missionária em muitos casos.

Mas não há razões nem para fuga do compromisso geralmente assumido quando do planejamento reencarnatório antes do nascimento, nem para envaidecimento. Instrumentos mediúnicos todos podemos ser, mas somente a prática do Bem inspirada nas lições de Jesus, nos faz detentores de um mediunato. Abusar destas nobres faculdades implica na perda temporária ou definitiva das mesmas e arremete-nos para os perigosos caminhos da obsessão em que a má conduta abre as portas à influência dos seres ignorantes e maldosos capazes de atingir os médiuns tanto física como psíquica e moralmente.

Em assunto de mediunidade, podemos produzir flores ou ervas daninhas. A escolha é nossa. E o jardim também.

Receba em casa a versão impressa do jornal Comunica Ação Espírita

Assine agora mesmo

ADE-PR © 2017 / Desenvolvido por Leandro Corso