ADE-PR: Associação de Divulgadores do Espiritismo do Paraná

Especial

Marca de nascença no menino Ian é evidência a favor da reencarnação. Assista o vídeo clicando aqui.

Jornal Comunica Ação Espírita | 73ª edição | 05 de 2009.

A reencarnação, palingênese ou pluralidade das existências

Por Wilson Czerski

Este é o quarto princípio fundamental da Doutrina Espírita a ser estudado por nós. A reencarnação também é conhecida como pluralidade das existências, lei das vidas sucessivas ou palingênese (dois sufixos gregos que significam nascer de novo).

Mas, tal qual ocorre com a mediunidade, não se trata de uma exclusividade do Espiritismo, pois esta é uma crença muito antiga e presente no seio de muitos povos e religiões. Basta pesquisar o Bramanismo, o Budismo, o Mazdeísmo (na antiga Pérsia), os druidas na Gália, os hindus na Índia, na China, entre os judeus com exceção dos saduceus, no antigo Egito, todos eles tinham como base religiosa a crença em Deus (exceto os budistas que possuem uma forma diferente de entender o universo e os hindus pela multiplicidade de seus deuses), na imortalidade da alma e o retorno dela à vida carnal para prestação de contas de erros cometidos no passado e desenvolvimento espiritual.

A reencarnação encontra respaldo nos três aspectos que estruturam o Espiritismo: filosófico, científico e religioso. No primeiro explica o porquê de todas as desigualdades existentes entre os homens; sem ela, decididamente, não haveria justiça de Deus. No segundo, há atualmente provas concretas de sua ocorrência, tanto pelas Regressões a Vidas Passadas como consequência de sua aplicação terapêutica, como pelas inúmeras pesquisas realizadas, inclusive e principalmente, por não-espíritas sobre pessoas com lembranças espontâneas de vidas pretéritas. E no sentido religioso, ao menos para os cristãos, há as passagens claras no Novo Testamento em que Jesus a ela se refere, como por exemplo, o diálogo com Nicodemus e sobre as vindas de João Batista e Elias; também o Velho Testamento a cita, não com essa denominação, em vários trechos.

Por uma questão de didatismo, faremos estudos separados para cada um deles, sendo que no religioso nos demoraremos em dissipar as dúvidas quanto as diferenças ou semelhanças entre reencarnação e ressurreição.

Aspéctio Filosófico

Almas humanas não reencarnam em animais e nem vice-versa. Não há número certo de reencarnações e o processo não é infinito. A partir de certo estágio evolutivo, o progresso dispensa experiências em corpos densos como os nossos, mas a quantidade delas depende basicamente de cada indivíduo. Quanto mais progredir em cada etapa, logicamente apressará o processo, diminuindo a necessidade de voltar a Terra ou a outros mundos semelhantes.

Mas para iniciarmos propriamente o estudo da reencarnação, temos que partir de alguns pressupostos sem os quais seria pura perda de tempo tentar provar a sua autenticidade. Vejamos. Em primeiro lugar temos que acreditar que possuímos uma alma ou espírito e que este sobrevive à morte do corpo físico. Se não admitirmos isto, obviamente nada teremos a colocar. Um segundo ponto é o da existência de Deus e compreensão, ainda que acanhada e incompleta, dos seus atributos. Se não o reconhecermos como absolutamente perfeito, sábio, bondoso e justo para com suas criaturas, então muitas ou todas as anomalias físicas, intelectuais, morais, sociais poderão se justificar. Como se percebe, a filosofia é o caminho da busca do conhecimento através da reflexão, do raciocínio lógico e tem como campo de ação toda a realidade existente e tudo o que nela está contido. Isto inclui Deus e o homem. Daí nos ocuparmos, como muitos grandes filósofos também o fizeram, com estes dois temas, embora alguns deles na tentativa de negar a existência da divindade, sem recorrer ou justamente para combater a religião. Entretanto, no nosso caso, não há impedimento que desde agora associemos um conceito de caráter religioso ou científico pertinente a certo conceito puramente filosófico. Aliás, se para alguns Jesus foi um grande psicólogo, diremos de nosso turno, que ele foi também um grande filósofo pela profundidade de seu saber e um grande cientista, pois os seus chamados milagres demonstram pleno conhecimento das leis da matéria e extraordinária capacidade de manipulação da mesma.

Assim tomemos como ponto de partida as palavras do Cristo “Ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo”. Por que as teria enunciado? Significa que, segundo o seu superior entendimento, o homem está submetido ao imperativo da lei de progresso, do trilhar por sucessivas experiências terrestres e em outros mundos, para avançar em sua evolução espiritual. A plenitude de desenvolvimento de suas faculdades morais e intelectuais que o conduzirão à perfeição relativa tornando-o realmente semelhante - mas não igual a Deus - certamente não pode ser alcançada com somente uma existência de 70 ou 100 anos.

O aprendizado que faz durante o curso de uma existência equivale a alguns curtos e trôpegos passos em direção ao infinito, mesmo que tenha maximizado a oportunidade, o que é raro. É insuficiente para que imediatamente após receba um selo de santificação com destino ao céu ou às lavas vulcânicas do inferno, se existissem. Na Terra, planeta de provas e expiações é onde, paulatinamente, pela repetição das jornadas reencarnatórias, o espírito é submetido à lei de Causa e Efeito - “a cada um, segundo suas obras” – e, pelo desenvolvimento cada vez maior de seu livre-arbítrio, liberta-se do jugo da matéria e faz prevalecer a sua inteligência que o conduzirá à felicidade.

Este é o processo pelo qual o espírito, mantendo sua individualidade ao longo do tempo, reveste-se de personalidades diferentes e temporárias como um ator que atua no palco representando os mais diversos papéis e tanto melhor o fará quanto mais aprendizado tiver acumulado pelo estudo, pelo treinamento, pelas corrigendas e disciplinas impostas a si mesmo, pela prática do Bem, e maior for o número de personagens que tenha tido oportunidade de encarnar. Somente através da reencarnação o homem vai se depurando espiritualmente, burilando o caráter e a inteligência, adestrando-se a se tornar um partícipe mais efetivo na obra da Criação Divina que, aliás, nunca cessa. Sem ela não haveria justiça divina como veremos mais adiante.

Não teríamos explicações plausíveis para todas as desigualdades e aparentes injustiças com as quais convivemos aqui na Terra. Prevaleceria um destino arbitrário e cruel, determinado por Deus. O homem não passaria de joguete nas mãos da sorte e do acaso. E mais: o homem agiria quase sempre impunemente. Excetuada a ação da justiça terrena que sabemos ser muito falha, onde e quando esperar pelos castigos aos maus e recompensa dos bons? Ora, se o céu beatífico e enfadonho pela ociosidade e as fornalhas do inferno não existem, como conciliar idéias de justiça divina com a impunidade das transgressões humanas? Esboroam-se o materialismo mecanicista de um lado, implode o fanatismo e os sofismas religiosos de outro, erigidos que foram com o propósito de dominação sombria.

Daí, portanto, a necessidade apregoada por Jesus de o homem ter que renascer inúmeras vezes em carne e espírito, isto é, a estruturação celular em diversos corpos sob o comando de um só espírito como vestes que são trocadas por necessidade de higiene ou desgaste. A renovação carnal depende dos pais, a espiritual do esforço do próprio espírito e de Deus que o criou simples e ignorante e lançou-o na torrente evolutiva para adquirir todas as outras faculdades que já se encontravam nele em estado latente. Algumas delas, passados milhões de anos, desde o agregado celular mais elementar que serviu de suporte à manifestação do princípio inteligente ou mônada espiritual, já estão desenvolvidas como a fala e a escrita, a razão e a memória, o livre-arbítrio parcial e a mediunidade que se generaliza por toda parte. Muitas outras ainda carecem de condições apropriadas de amadurecimento moral e intelectual as quais constituem as duas asas sustentadoras do voo do espírito rumo à perfeição e à felicidade.

Ao longo da linha de crescimento do ser imortal, aquele princípio inteligente caminhou passando pelos diversos reinos da natureza e adequando sempre, na sua marcha ascendente, as formas físicas de expressão no mundo corpóreo ao grau íntimo de necessidade e potencial. Da atração no mineral – primeiras evidências do esforço da natureza, tela sublime a expressar a obra de Deus – no sentido de individualizar a vida, transitando pelo predomínio da sensação nos vegetais e do instinto nos animais, alcança a razão plena no homem atual e projeta-se para a intuição característica do homem do futuro, elegendo-se para compor a angelitude dos espíritos superiores.

As desigualdades humanas, como explicá-las

Comecemos pelas físicas para as quais podemos elaborar as seguintes questões. Por que Deus nos colocaria no mundo com diferenças que se transformam em agentes de facilidades ou entraves de tal monta capazes de selar o nosso destino? Já paramos alguma vez para pensar por que uns nascem sadios e outros com deformações físicas e retardos mentais? A Síndrome de Down, por exemplo, a que se deve? Carga genética dos pais? E por que, então, um e o irmão e mesmo o pai ou a mãe, tendo o gene responsável não tiveram a doença desenvolvida? As causas, segundo a medicina, podem estar relacionadas também com acidentes de parto ou consequência de enfermidades acometidas à mãe durante a gravidez. O raciocínio ainda é o mesmo: por que a doença naquela época e, se foi acidente mesmo e não negligência do obstetra, por que com ele?

Por que, esteticamente falando, há pessoas altas, biótipo para jogador de basquete e o constrangimento de um anão, ou brancos e negros com consequências socioeconômicas? Por que a beleza de uns abrindo portas profissionais e pessoais (modelos, os tais “boa aparência”, potencial para melhores matrimônios) e a fealdade criando embaraços? Por que no decorrer da vida a saúde e a doença que surge sorrateira, companheira de anos ou muitas décadas sem razões aparentes? Enfim, por trás de todos os mecanismos das leis biológicas das quais só constatamos as manifestações exteriores, está a regência soberana das leis de equilíbrio que, burladas em alguma época e lugar, reclama reajuste. Ou então são expressões da vontade do próprio indivíduo determinando escolhas provacionais para acelerar a ascensão espiritual. Muita beleza feminina, por exemplo, pode ser fator de ameaça ao cumprimento a determinados programas de trabalho para a futura etapa reencarnatória. Poderá despertar a sensualidade excessiva, a vaidade, o desejo de muitos do sexo oposto, resvalando até para graves conflitos de relacionamento pessoal e familiar. Então, o espírito solicita alterações na sua matriz perispiritual, optando por traços mais comuns que não chamem tanto a atenção.

Ainda no aspecto físico, perguntamos sobre as razões das mortes prematuras. Não tiveram tempo suficiente nem para praticarem o bem e irem para o “céu” e nem tampouco o mal para irem para o “inferno”. Para o purgatório talvez. E de lá para onde se nada fizeram, se não se submeteram às vicissitudes da vida material? E esta não é uma bênção concedida por Deus? Por que a uns de seus filhos ela é negada ou tão curta? E as mortes violentas, os acidentes, as catástrofes, as guerras? Por que essa “sorte” tão arbitrária? Fatalidade que atinge muitas vezes indivíduos de boa índole e poupa outros maldosos?

E quanto às intelectuais? Gênios ou superdotados e idiotas nos extremos e uma imensa maioria em muitos graus intermediários de inteligência. Dir-se-á talvez que os primeiros são exceção. Então Deus é parcimonioso e concede privilégios. Por quê? De onde provêm as idéias inatas, as vocações profissionais, os dons artísticos que tantas vezes brotam na mais tenra infância e se desenvolvem a revelia da instrução posterior? A inteligência dada a uns e negada a outros as mais das vezes também ampliam as diferenças pelas suas consequências e assim a parcialidade de Deus repercutiria em efeito cascata nas condições econômicas e sociais do indivíduo, pois em geral, quanto mais alcance intelectual, maiores as possibilidades de conforto material pelas oportunidades surgidas.

Mas há também as diferenças sociais e econômicas. Por que uns nascem em berço de ouro ou são bafejados depois pela fortuna enquanto outros nascem pobres, em favelas, enfrentando um ambiente extremamente hostil aonde lhes são negados os direitos e oportunidades mais elementares de saúde, estudo e formação religiosa, abrindo uma luta titânica para não resvalar pelos descaminhos do crime?

E quanto à moralidade? Como listar lado a lado Albert Sabin, Francisco de Assis, Irmã Dulce, Madre Teresa de Calcutá e Nero, Genghis Khan e Hitler? Para aceitar tudo isto assim friamente só concebendo um Deus absolutamente injusto e caprichoso.

Receba em casa a versão impressa do jornal Comunica Ação Espírita

Assine agora mesmo

ADE-PR © 2017 / Desenvolvido por Leandro Corso