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Jornal Comunica Ação Espírita | 82ª edição | 11 de 2010.

Allan Kardec na construção da Doutrina Espírita

Por Gilberto Allievi

Defendemos, em outro artigo, a tese que Allan Kardec é o autor da Doutrina Espírita afirmando, em conclusão, que denominá-lo de Mestre e Autor não lhe seria prestar nenhum favor, mas sim atestar sua extraordinária missão. Pois bem. Queremos agora apontar alguns elementos demonstrando que a construção do Espiritismo foi obra sua, a ponto de ele mesmo corrigir erros que teriam por fonte o próprio mundo espirituala exemplo da constatação de que a alma se uniria ao corpo “no momento em que a criança vê e respira”. É o que se vê da primeira edição de “O Livro dos Espíritos”:

Questão 86 – A alma ou espírito se une ao corpo no momento em que a criança vê a luz e respira. Antes do nascimento a criança só tem vida orgânica sem alma. Ela vive como as plantas, tendo apenas o instinto cego de conservação, comum em todos os seres vivos”.

Importante atentar-se ao posicionamento polêmico de Canuto Abreu, nas Notas do Tradutor da primeira edição de “O Livro dos Espíritos”, de que Allan Kardec, nesta primeira obra teria exercido o papel de um secretário dos Espíritos, ressaltando, que na segunda e definitiva edição o Mestre se agigantou a tal ponto que, depois de convencido de um princípio, nem os Espíritos logravam demovê-lo de sua decisão.

Nesse foco dessa análise emerge uma indagação desconfortável: Quem errou? Para os que acham que Allan Kardec foi um codificador de atitude passiva, coletor de textos, obediente ao ditado dos espíritos, decorre a constatação de que o erro somente poderia ter origem nos Espíritos.

Para os que aceitam o caráter de ciência da doutrina, em que Allan Kardec observa, altera, esboça ideias, comenta, reconsidera, deduz, constroi um sistema, redige, muda de opinião, utiliza o princípio da progressividade do ensino, inexiste problema. Pelo contrário, atesta a correção de sua metodologia, já que a travessia pelas hipóteses é o caminho na construção do conhecimento.

Outro exemplo de alteração de posicionamento é o que se refere ao termo possessão. Vemos Kardec, dizendo expressamente: “Assim, para nós, não há possessos, há somente obsidiados, subjugados e fascinados” (Livro dos Médiuns, item 241). Ocorre que posteriormente reconsidera sua posição e passa a admiti-la, dando-lhe um sentido próprio:

 

De posse momentânea do corpo do encarnado, o Espírito se serve dele como se seu próprio fora: fala pela sua boca, vê pelos seus olhos, opera com seus braços, conforme o faria se estivesse vivo. Não é como na mediunidade falante, em que o Espírito encarnado fala transmitindo o pensamento de um desencarnado; no caso da possessão é mesmo o último que fala e obra; quem o haja conhecido em vida, reconhece-lhe a linguagem, a voz, os gestos e até a expressão da fisionomia. (A Gênese, cap. XIV, item 47)

 

Onde o fundamento da reconsideração de sua posição? Na “Revista Espírita” de 1863, no mês de dezembro, Allan Kardec em papel de homem de ciência e na construção da doutrina nascente dá suas razões:

            Dissemos que não havia possessos no sentido vulgar do termo, mas subjugados. Queremos reconsiderar esta asserção, posta de maneira um tanto absoluta, já que agora nos é demonstrado que pode haver verdadeira possessão, isto é, substituição, embora parcial, de um Espírito encarnado por um Espírito errante. Eis um primeiro fato que o prova, apresentando o fenômeno em toda a sua simplicidade.

 

Reconsidera sua posição de forma direta, demonstrando sua ação em toda a construção da Doutrina, enfatizando o imenso papel da “Revista Espírita” como um laboratório de ensaio “destinado a sondar a opinião dos homens e dos Espíritos sobre alguns princípios, antes de os admitir como partes constitutivas da doutrina”. (Gênese, Introdução).

O item 283 da primeira edição está assim redigido: Onde está escrita a Lei Divina? Na consciência. – O Homem tem então assim consigo mesmo os meios de distinguir o que está bem do que está mal? Sim, quando crê em Deus e quando os quer distinguir. Deus lhe deu a inteligência para discernir um de outro.

Compare-se a redação da questão 621 da edição atual de “O Livro dos Espíritos”: Onde está escrita a lei de Deus. - Na consciência.

      621 a)Visto que o homem traz em sua consciência a lei de Deus, que necessidade havia de lhe ser ela revelada?- Ele a esquecera e desprezara. Quis então Deus lhe fosse lembrada.”

                  Vê-se que a pergunta e a resposta são idênticas, mas no item que se segue, tanto a pergunta como a resposta são melhor formuladas. Não seria crível imaginar-se que os Espíritos ditassem uma redação inicial e depois voltassem no mesmo tema e fizessem “novo ditado”. Parece razoável admitir a primeira edição, como um esboço, que oportunizou Allan Kardec fazer as alterações necessárias, de acordo com seu critério de avaliação.

                  Compare-se agora a redação da questão 320 da primeira edição com a de número 674 da segunda: 320 – A necessidade de Trabalho é uma Lei da Natureza?- Sim, e a Civilização te obriga mais ao Trabalho.

      674. A necessidade do trabalho é lei da Natureza? - O trabalho é lei da Natureza, por isso mesmo que constitui uma necessidade, e a civilização obriga o homem a trabalhar mais, porque lhe aumenta as necessidades e os gozos.

                  A pergunta é a mesma. A resposta da segunda edição tem conteúdo preciso, sem sub-itens como os há na primeira edição. Uma análise atenta pontuará as grandes alterações e novas construções que Allan Kardec realizou entre a primeira e a segunda edições, ficando fragilizado o argumento, pelos fatos pesquisados, de que Allan Kardec tenha agido passivamente, atendo-se no papel de mero coordenador na transmissão das informações vindas do plano espiritual. Cogita-se que mais de 80% de toda a obra tenha sido escrita diretamente por ele.

                  Aos leitores da “Revista Espírita” Allan Kardec dá como certa a percepção das mudanças que realizou na elaboração da doutrina: Aliás, os leitores assíduos da Revue hão tido ensejo de notar, sem dúvida, em forma de esboços, a maioria das ideias desenvolvidas aqui nesta obra, conforme o fizemos, com relação às anteriores. (Gênese, Introdução).

                  Tais fatos, mesmo que ínfimos, não deixam dúvidas quanto ao papel de Allan Kardec como o autor da construção do Espiritismo. Tal constatação desperta questionamentos contundentes sobre a relativização de seu trabalho que parece permear parte do movimento espírita.

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