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Jornal Comunica Ação Espírita | 108ª edição | 03 de 2015.

O paradoxo dos espíritas sobre o livre-arbítrio

 Ao mesmo tempo que tentamos explicar tudo o que acontece no presente através da busca de causas fincadas no passado, em outras palavras, na ação do livre-arbítrio individual e suas consequentes repercussões futuras pelo vigor da lei de causa e efeito, negamos a possibilidade do indivíduo, corrigir o erro ou, pior, sequer cogitamos que muitas ações, certas ou erradas, do hoje são apenas isso, ações do hoje, novas, pelo mesmo livre-arbítrio que não dorme, mas sem vínculo com o ontem.
 Essa armadilha pode ser sintetizada na expressão “Somos senhores do futuro, mas escravos do passado” ou de sua equivalente “o plantio é livre, mas a colheita é obrigatória”. Ocorre que a má colheita pode ser compensada com uma boa porque, medianos que somos, erramos, mas também acertamos.
 Deus é tão bom e misericordioso que, às vezes, basta a sincera intenção de mudar, corrigir, acertar. Promessas de novos e melhores plantios permitem a aquisição de créditos antecipados na forma de talentos diversos como um lar harmonioso, condições econômicas favoráveis, boa saúde, sucesso profissional, amizades valiosas, tudo contribuindo para que tenhamos possibilidades de praticar o Bem e superar nossas deficiências íntimas.
 Se a lição já foi aprendida, não há mais necessidade do sofrimento. Deus quer a felicidade de suas criaturas. Claro que algumas expiações são inevitáveis: atentados contra a vida – própria ou de terceiros -, abusos do corpo, aquisição ilícita ou uso egoísta de grandes volumes de recursos materiais, manejo do poder que humilha e esmaga os semelhantes, destruição leviana e cruel de afetos, danos significativos à Natureza. Nesses casos as marcas registram-se mais profundamente na alma e demandarão mais tempo ou intensidade da dor reparadora.
 Nosso raciocínio equivocado tem suprimido o espaço da dinâmica do presente, capaz de alterar o suposto determinismo criado lá atrás pela lei de causa e efeito, e que constrói ao mesmo tempo, o determinismo para amanhã, mas sempre maleável para melhor ou não.
 Parte da culpa desta visão distorcida sobre a liberdade e responsabilidade dos atos humanos talvez resida na adoção como verdade absoluta da vigência de uma lei newtoniana de ação e reação que é diferente de causa e efeito. Esta última não é matemática, mas flexível, comportando possibilidades de adiamentos, atenuamentos, parcelamentos e até cancelamentos.
 Outro ponto é a leitura superficial que os espíritas fazem das próprias Obras Básicas. Temos a tendência de ignorar expressões como “podem”, “quase sempre”, “geralmente”, “às vezes”, “frequentemente”, presentes nas respostas dos Espíritos, absorvendo tudo como regras absolutas, sem exceções.
 Dois exemplos para ilustrar e sobre esse tema. No item 7 do cap. V do ESE, os Instrutores repetem nada menos que quatro vezes que se o indivíduo “foi duro e desumano, poderá ser a seu turno tratado duramente e com desumanidade; se foi orgulhoso, poderá nascer em humilhante condição; se foi avaro, egoísta, ou se fez mau uso de suas riquezas, poderá ver-se privado do necessário; se foi mau filho, poderá...”. Portanto, nem sempre a uma ação segue-se obrigatoriamente uma reação igual. Já no item 9 afirmam que “nem todo sofrimento é, necessariamente, indício de uma falta determinada”. Portanto, não é expiação. “Frequentemente são provas escolhidas para apressar o progresso” (grifos nossos).
 Há um erro tangente à questão. Não possuímos o livre-arbítrio integral, mas parcial. Somos submetidos a uma série de limitações impostas pelo Ser Divino (reencarnar, desencarnar, evoluir) e determinismos diversos como, o biológico (ciclo da vida, não poder voar), geográficos e climáticos, culturais e sociais porque ninguém consegue ficar totalmente imune às influências dos hábitos e costumes, tecnologia disponível – ou falta dela em regiões ou países menos desenvolvidos - e de outros fatores ainda mais relevantes como a legislação humana.
 E sofremos a interferência direta ou indireta das outras pessoas: familiares, patrões e colegas de trabalho, vizinhos, líderes religiosos, políticos, desconhecidos. Todos eles exercem certo grau de influência em nossas vidas das quais não podemos nos furtar porque não é legal ou conveniente ou porque simplesmente não podemos opor resistência a ela.
 É o livre arbítrio do mais forte, como o assaltante armado que não nos dá escolha senão entregar nossos pertences. Isso quando não colocam em risco a nossa própria vida. E tudo isso, na maioria das vezes, não tem nada a ver com expiação de vidas passadas. Quem sai na chuva é para se molhar. Vivemos num mundo pouco evoluído em que temos o duplo trabalho de enfrentar a perversidade dos homens e a inclemência da natureza para desenvolver as qualidades do coração e da inteligência (ESE, cap. III, item 14).

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