ADE-PR: Associação de Divulgadores do Espiritismo do Paraná

Especial

Marca de nascença no menino Ian é evidência a favor da reencarnação. Assista o vídeo clicando aqui.

Jornal Comunica Ação Espírita | 121ª edição | 08 de 2017.

A necessária desdogmatização do sofrimento

O estudo da Doutrina Espírita vai bem mais além do que ouvir e repetir frases proferidas nas palestras públicas ou cristalizar opiniões em cima de leituras descontextualizadas, ainda que das Obras Básicas. Por um somatório de razões desta natureza é que tornamo-nos idólatras do sofrimento.

O prejuízo é claro não só para os próprios propaladores que assumem a vitimização por supostos fatos infelizes cujas raízes se perdem no tempo, como a todos aqueles a quem este tipo de raciocínio é vendido assumindo o papel de multiplicadores de conclusões precipitadas.

Para muitos, esse comportamento de atribuir qualquer acontecimento negativo na área da saúde, do convívio familiar ou no âmbito do trabalho a equívocos cometidos por ele em vidas pretéritas, enfeixadas no conceito das expiações, pode representar um esforço demonstrativo de humildade, mas também uma fuga em relação aos deslizes do presente.

Prevalece em nosso meio a preferência pelas “causas anteriores do sofrimento”, evidenciando que agora já somos bonzinhos, ignorando as possíveis “causas atuais das vicissitudes”. Serve muito bem também ao se apontar o dedo acusatório aos outros, aparentemente no intuito de ‘consolar’ os que sofrem, até mesmo quando protagonistas de calamidades naturais ou provocadas pela irresponsabilidade humana. 

Não faltam entendidos para, sem cerimônia, afirmar que todos nóssomos grandes devedores perante as leis divinas, proprietários de uma bagagem carregada de sombras e crimes, comprometendo a autoestima do indivíduo ou plantando a dúvida em sua alma quanto à capacidade de se erguer e ser feliz. Faz muito mal quem assim age.

Em mundos como o nosso, de expiações sim, mas também de provas, temos que “lutar, ao mesmo tempo, contra a perversidade dos homens e com a inclemência da natureza, duplo e árduo trabalho que simultaneamente desenvolve as qualidades do coração e as da inteligência”, diz-nos Agostinho no cap. III de O Evangelho Segundo o Espiritismo. “Árduo trabalho”. Alguém julga que poderia ser diferente, sem sofrimentos, sacrifícios? A natureza deles, pela lógica e uso da fé raciocinada, está mais ligada às causas anteriores ou atuais? Não é a construção do futuro que está em jogo?

Para quem ainda estiver em dúvida, consultemos a questão 399 de O Livro dos Espíritos: “Sendo as vicissitudes da vida corporal expiação das faltas do passado e, ao mesmo tempo, provas com vistas ao futuro, seguir-se-á que da natureza de tais vicissitudes se possa deduzir de que gênero foi a existência anterior?” – perguntou Allan Kardec. E a resposta: “Muito amiúde é isso possível, pois que cada um é punido naquilo por onde pecou.

Entretanto, não há que tirar daí uma regra absoluta. As tendências instintivas constituem indício mais seguro, visto que as provas por que passa o Espírito o são, tanto pelo que respeita ao passado, quanto pelo que toca ao futuro” (negrito nosso).

Partindo do pressuposto de que quem, habitualmente remete às vidas passadas todas as causas das experiências menos confortáveis, apresente na atual existência boa índole e ausência de graves desvios de caráter, ainda mais se for espírita, teria que imaginar que a grande maioria das pessoas de seu convívio fossem perfeitas farsantes, capazes de simular virtudes e ocultar ações tenebrosas de reencarnações pregressas.

Se, conforme a questão referida de OLE, é muito mais pelas tendências de caráter do que pela natureza das eventuais atribulações enfrentadas que podemos aquilatar sobre o que um indivíduo foi e fez no passado, fica claro que na equação da lei de causa e efeito, as expiações não podem ser desconsideradas, mas as provações muito menos.

A vida é dinâmica. Há consequências de atos passados e há ações novas que geram efeitos no porvir. Deus deseja o bem, o crescimento e a felicidade de suas criaturas. Se qualquer delas aprendeu a lição, olha para cima e caminha firme em frente, o sofrimento não se faz mais necessário. Sempre pode haver as exceções de quem insiste em ‘lavar’ a mancha de um crime que ficou lá atrás pagando na mesma moeda, ao menos, é o que nos contam alguns relatos literários. 

Mas daí a investirmos contra nós mesmos, rebaixando-nos à condição de criminosos irrecuperados necessitados de chibatadas morais ou subtrair o otimismo e a alegria que o verdadeiro ensinamento filosófico espírita proporciona aos companheiros que chegam às nossas instituições, isso deve ficar na conta daqueles que não estudaram o suficiente ou preferem as interpretações simplistas já repassadas por antecessores desatentos.

Conjecturas romanescas não devem excitar o orgulho por realizações que não sabemos ter conquistado – e mais, ainda, se soubéssemos -, nem tampouco nos tornar depressivos por coisas más incompatíveis com o que já somos. Aliás, não somos tão bons quanto gostaríamos nem tão maus como alguns menos esclarecidos querem nos fazer acreditar. 

Por isso, já é tempo dos espíritas promoverem uma salutar dissolução do dogma da culpa que embaraça a razão e os passos, aprisionando ao passado quando devia libertar para o futuro.

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