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Especial

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Jornal Comunica Ação Espírita | 70ª edição | 11 de 2008.

A Revista de Kardec - 1º semestre de 1867

No mês de janeiro, Allan Kardec, sob o título “Olhar retrospectivo sobre o movimento espírita”, faz interessante classificação das pessoas potencialmente suscetíveis de aceitar as idéias espíritas. Dividiu-as em 15 grupos e a cada um atribuiu um grau ou percentual sobre o total que poderia aceitar a Doutrina Espírita. Cada denominação foi delimitada por definição de quem a comporia. O estudo serviria de orientação para todos aqueles que desejassem atuar na divulgação da nova doutrina os quais deveriam concentrar esforços naquilo que hoje, no jargão do marketing, chamaríamos de nicho de mercado.

Os primeiros sete grupos – fanáticos de todos os cultos, crentes satisfeitos, crentes ambiciosos, crentes pela forma (sem conotação com os evangélicos), materialistas sistemáticos, sensualistas e despreocupados – receberam grau zero, ou seja, todos seriam impermeáveis ao princípios espíritas. O oitavo grupo seria formado pelos panteístas, dos quais 10% poderiam se tornar espíritas.

Nono: deístas – 30%; 10º) espiritualistas não sistemáticos – 50%; 11º) crentes progressistas – 50%; 12º) crentes não satisfeitos – 80%; 13º) incrédulos por falta de melhor opção – 90%; 14º) livres-pensadores – 90% e 15º) espíritas por intuição – 100%.

A edição de fevereiro daquele ano foi muito rica quanto aos temas tratados na Revue. Entre eles o suicídio de um cão e a carta do padre Lacordaire de 29 de junho de 1853 - dois anos antes da publicação do primeiro livro espírita –, a uma certa Sra. Swetchine em que o sacerdote admite ter presenciado os fenômenos das mesas girantes pelas quais espíritos desencarnados se comunicavam com os vivos. “Elas me disseram coisas muito admiráveis sobre o passado e o presente (...). Em todos os tempos houve modos mais ou menos bizarros para se comunicar com os espíritos; apenas outrora se fazia mistério. (...). Talvez por essa divulgação Deus queira proporcionar o desenvolvimento das forças espirituais (...)”.

Mas o primeiro assunto com que se ocupou naquele mês foi sobre liberdade de pensamento e de consciência, a propósito do surgimento do jornal La Libre Conscience. Em meio às oito páginas do texto filosófico, destacamos algumas frases. “O conselho de Helvetius: ‘É preciso ter coragem de ignorar o que não se pode saber’ é muito sábio e se dirige, sobretudo, aos sábios presunçosos (...). Entretanto, seria mais justo dizer: ‘É preciso ter a coragem de confessar a sua ignorância sobre aquilo que não se sabe’ (...). Em sua concepção mais larga, o livre pensamento significa: livre exame, liberdade de consciência, fé raciocinada; simboliza a emancipação intelectual, a independência moral, complemento à liberdade física (...) pode haver livres pensadores em todas as opiniões e crenças. Neste sentido, o livre pensamento eleva a dignidade do homem; ele dela (sic) faz um ser ativo, inteligente, em vez de uma máquina de crer. (...) o Espiritismo (...) não repousa em nenhuma teoria preconcebida ou hipotética, mas na experiência e na observação dos fatos; em vez de dizer: ‘Crêde, para começar e depois compreendereis, se puderdes’, diz: ‘Compreendei, para começar e depois crereis, se quiserdes’”.

Em março a edição é aberta com uma análise obre a possível influência dos medicamentos homeopáticos em deficiências morais como o ciúme, o ódio, orgulho ou a ira. A conclusão de Kardec é que, a despeito da ação “molecular” devido a natureza etérea do remédio, “uma tal doutrina, se verdadeira, seria a negação de toda responsabilidade moral”.

Mais à frente há um interessante relato mediúnico extraído do Banner of Light, de Boston, sobre o reencontro do Espírito de Abraham Lincoln e o de seu assassino, William Booth (*).

Estranhos fenômenos de transporte de objetos supostamente efetuados, como se diz hoje, por via paranormal, mereceram as considerações de Kardec em abril. A narrativa original é do Moniteur de l’Indre, de fevereiro de 1867. Os eventos se passavam numa fazenda. Roupas de cama desapareciam para reaparecer em tonéis, no forno ou sob o feno. Portas eram abertas ou trancadas sem chaves, objetos de um cofre espalhados pelo chão, um relógio três vezes “saiu” da parede e foi parar num prato de sopa.

O mesmo jornal, na edição seguinte, informava que as diabruras cômicas haviam se transformado em ameaças de tragédia com dois princípios de incêndio não explicados. Suspeitou-se de uma adolescente como sendo de algum modo responsável pelos fenômenos. Era o que em parapsicologia se chama de o epicentro. Kardec alerta que fatos como estes são os mais fáceis de simular. Mas caso sejam autênticos seus autores são espíritos levianos que se divertem com o medo e transtornos causados.

Fechando o primeiro semestre de 1867, a homeopatia voltou a ser assunto em junho, após Kardec receber uma carta de um médico homeopata e espírita em que este defende a tese da influência deste tipo de medicamento nas características da personalidade. Afirma ter ele próprio sido beneficiado por este tratamento, mas Kardec não se rende aos argumentos.

Ele comenta: “os medicamentos homeopáticos podem ter uma ação sobre o moral, é agindo sobre os órgãos de sua manifestação, o que pode ter sua utilidade em certos casos, mas não sobre o Espírito; as qualidades boas ou más e as aptidões são inerentes ao grau de adiantamento ou de inferioridade do Espírito (...) não contestamos que certas medicações (...) produzem alguns efeitos (...) mas contestamos mais que nunca os resultados permanentes e, sobretudo, tão universais, como alguns pretendem”.

Referências

(*) Segundo a Enciclopédia Barsa o verdadeiro nome do assassino de Abraham Lincoln era John Wilkes Booth.

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