ADE-PR: Associação de Divulgadores do Espiritismo do Paraná

Especial

Marca de nascença no menino Ian é evidência a favor da reencarnação. Assista o vídeo clicando aqui.

Jornal Comunica Ação Espírita | 126ª edição | 03 de 2018.

A hora da morte: determinística?

Por Carlos Augusto Parchen

Um ponto polêmico que tem trazido acirradas discussões em muitas Casas Espíritas é a questão da “hora da morte”. Muitos defendem ardorosamente a posição de que existe uma programação para o instante da morte, ou seja, que existe uma data e uma forma específica para tal, e que isso está explicitado no Livro dos Espíritos.

Outro grupo, também numeroso, defende a posição de que, sendo o livre-arbítrio inviolável e a vontade constituindo a determinante dos rumos da vida, não se tem pré-determinada a morte, sendo determinístico apenas que se vai  morrer, pois isso é inevitável.

Objetivando contribuir com a reflexão e discussão desse tema, apresentamos uma abordagem pessoal sobre a questão. Os defensores de que existe uma programação, de forma determinística, para o instante e a forma da morte, baseiam-se em algumas questões do Livro dos Espíritos, em especial as apresentadas logo a seguir (com grifos deste autor), para análise do leitor.

Na questão nº 738b, tem-se a seguinte resposta: “... Quer a morte chegue por um flagelo ou por uma outra causa, não se pode escapar quando a hora é chegada...”. Na questão nº 853, pergunta-se: “... Algumas pessoas mal escapam de um perigo mortal para logo cair em outro; parece que não teriam  como  escapar  à  morte.  Não  há fatalidade nisso?...”. Resposta: “... A fatalidade só existe, no verdadeiro sentido da palavra, apenas no instante da morte. Quando esse momento chega, seja por um meio ou por outro, não o podeis evitar...”. Na questão nº 854, apresentada como: “... Por causa da inevitável hora da morte, as precauções que se tomam para evitá-la são inúteis?...”. Resposta: “... Não. As precauções que tomais são sugeridas para evitar a morte que vos ameaça, são meios para que ela não ocorra...”.

Sabemos que não se pode estabelecer conclusões assertivas apenas com a leitura parcial de trechos “pinçados” desta ou daquela obra, pois  isso  seria  um empobrecimento do conhecimento e da busca da verdade que não condiz com os princípios estabelecidos por Kardec: análise lógica e crivo da razão. Na Doutrina Espírita, é necessário estudar o seu conjunto, as cinco Obras Básicas e fazer a análise de forma contextualizada. Nesse enfoque, apresentamos a seguir um contraponto às questões anteriormente apresentadas, retiradas do próprio Livro dos Espíritos. Convidamos o leitor para sua análise e interpretação.

Na questão nº 856, tem-se: “... O Espírito sabe por antecipação como desencarnará?...”. Resposta: “... Sabe que o gênero de vida escolhido o expõe a desencarnar mais de uma maneira do que de outra. Sabe igualmente quais as lutas que terá de enfrentar para evitá-la e, se Deus o permitir,não fracassará...”. Já na questão nº 859 tem-se a seguinte resposta: “...  A  fatalidade,  verdadeiramente, consiste apenas na hora em que deveis nascer e morrer...”. Na questão nº 860, tem-se: “... O homem, por sua vontade e ações, pode fazer com que os acontecimentos que deveriam ocorrer não ocorram, e vice-versa?...”. Resposta: “... Pode, desde que esse desvio aparente caiba na ordem geral da vida que escolheu...”. Na questão nº 851, apresenta-se: “... Haverá fatalidade nos acontecimentos da vida, conforme o sentido que se dá a essa palavra, ou seja, todos os acontecimentos são predeterminados? Nesse caso, como  fica  o  livre-arbítrio?...”  Resposta:  “... A fatalidade existe  apenas  na  escolha  que  o  Espírito  fez  ao  encarnar  de  suportar  esta  ou  aquela prova...”.

No Cap. 5, coloca Kardec: “... O ponto essencial é que o ensinamento dos Espíritos é eminentemente cristão. Apoia-se na imortalidade da alma, nas penas e recompensas futuras, na justiça de Deus, no  livre-arbítrio  do  homem,  na  moral  do Cristo”. Já no  Cap. 7, afirma: “... O Espírito sempre desfruta de seu livre-arbítrio. É em virtude dessa liberdade que escolhe as provas da vida corporal. Uma vez encarnado, delibera o que fará ou não e escolhe entre o bem e o mal. Negar ao homem o livre-arbítrio seria reduzi-lo à condição de uma máquina...”.

Evidencia-se, na análise das questões do Livro dos Espíritos e demais obras básicas, que o livre-arbítrio determina o processo reencarnatório dos espíritos, sendo o mesmo inviolável. Essa é uma questão filosófica, consoante com a Justiça Divina, que não pode  ser colocada  em  dúvida sem duvidar também dos alicerces da Doutrina Espírita, apresentados por  Kardec  no Cap. 5 e no Cap. 7 (trechos já  apresentados).

Parece-nos ser bem perceptível que, quando aborda o “... instante da morte...” ou ainda “... não se pode escapar quando a hora é chegada...”, O Livro dos Espíritos não afirma e nem sugere que existe uma programação para tal,  uma determinação  de  que forma e que momento isso ocorrerá.

A morte só pode ser considerada determinística porque ocorrerá, e não se tem como evitar isso. O próprio nascimento é determinístico, pois para encarnar, tem-se que nascer. Pode-se, afirmar que existe “um momento da morte” (ela ocorrerá inexoravelmente), mas não “o momento da morte”  (ou  seja, que ela  está  determinada  e programada previamente).

Por último, fazemos uma indagação aos defensores da posição de que o instante e a forma da morte de cada um está programada e não há como dela escapar: se uma pessoa está destinada a morrer assassinada, não nos diz a lógica e a razão de que alguém tem a programação de assassiná-la? Se vai ser colocada em contato com o assassino, não estaria “induzindo” este ao assassinato? Não basta dizer “... não é assim...”. Isso não é resposta, pois esta tem que ser explicada à luz da Justiça Divina, da lógica e da razão.

Sabemos que a questão é polêmica e não somos “donos da verdade”. Apenas apresenta-se à consideração dos leitores uma abordagem de uma das vertentes da questão. Ficaremos felizes se este artigo puder trazer à tona mais reflexões, análises e conclusões, mesmo que completamente diferentes da posição aqui apresentada.

Tudo nos une, nada nos separa.

 

(1) Eng. Agr., Prof. Dr., Palestrante e Articulista Espírita (c_a_parchen@yahoo.com.br)

Receba em casa a versão impressa do jornal Comunica Ação Espírita

Assine agora mesmo

ADE-PR © 2018 / Desenvolvido por Leandro Corso