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Jornal Comunica Ação Espírita | 127ª edição | 05 de 2018.

A questão 932 de “O Livro dos Espíritos”

Por Gilberto Luiz Tomasi

Atribui-se a Martin Luther King a frase “o que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. Seria, segundo ele, o silêncio da cumplicidade e da conivência movida pela passividade dos chamados bons, que preferem a acomodação da zona de conforto, que de conforto, convenhamos, não tem nada. Quando os bons se calam, os maus triunfam. 

É normal ao lermos “O Livro dos Espíritos” que, num primeiro momento, principalmente para quem não é espírita, ou mesmo sendo não estude com profundidade a Doutrina, não consiga entender tanto as perguntas como principalmente as respostas das 1019 questões apresentadas.

Imagino que uma das dificuldades a respeito da compreensão de seu conteúdo tenha relação com a época em ele foi publicado (século XIX), onde as pessoas não tinham ainda o grau de entendimento necessário para a profunda análise e interpretação das mensagens expostas. Neste sentido, surgiram colocações e teses sobre o sentido de suas perguntas e respostas sem interpretações fundamentadas ou lúcidas, criando paradigmas que custam a serem rompidos. 

Necessário se faz contextualizar a obra para o seu entendimento lógico e consistente nos dias de hoje. Afinal, estamos em outra época, com outras percepções, com novos valores acerca da História. A Doutrina Espírita é progressista e seu conteúdo é sempre atualíssimo. Neste aspecto, e visando sempre um maior entendimento a respeito de suas teses, deve, sim, ser estudada e analisada conforme os períodos históricos e sociais que o ser humano vive, atualizando o seu entendimento sobre a filosofia e ideal de Kardec e dos Espíritos Superiores que o orientaram na redação de OLE.

Umas das perguntas que me chamam atenção e me fazem pensar, analisar e repensar a resposta, é a questão 932, onde Kardec pergunta aos Espíritos: Por que, no mundo, tão amiúde, a influência dos maus sobrepuja a dos bons? Ao que eles respondem: Por fraqueza destes. Os maus são intrigantes e audaciosos, os bons são tímidos. Quando estes o quiserem, preponderarão.

Penso que os espíritos não fecham a questão na resposta; ela está em aberto no que se refere ao modo de ação dos bons. Afinal, quando será que irão reagir; e mais, será pelo amor ou pela dor?

Há quem diga ser preferível que sejamos nós, que nos definimos como bons, os agredidos, ou, numa definição menos ofensiva, os atacados; e que jamais sejamos agressores, ou ofensores, a ponto de revidarmos uma maldade. Entretanto, precisamos compreender melhor o que seria uma reação adequada para enfrentarmos a maldade sem cairmos em sua teia de raiva e ódio. 

Analisemos a questão sob dois aspectos. Quando nos sentimos agredidos, e agimos de forma irracional ao lidarmos com a situação, entramos num círculo vicioso onde hoje eu recebo a ação e amanhã agredirei como forma a responder à maldade recebida; ou mesmo permaneceremos inertes, sem qualquer atitude para nos protegermos de forma adequada dessa senda de negatividade. 

Ou seja, aceitando passivamente a agressão, ou lidando de maneira inapropriada com ela, não estaríamos retardando o processo de nos sobrepormos sobre os maus? Será que esta aceitação pura e simples na verdade não estaria acobertando uma passividade, onde é melhor a omissão do que a reação? 

Por outro lado, ao nos colocarmos como defensores da justiça em busca de uma solução ou mudança de comportamento em revide à maldade, de forma incisiva e direta, poderíamos nos sobrepor aos maus, não aceitando situações audaciosas, intrigantes, suspeitas, ardilosas.

Dizem os estudiosos da Doutrina que a maioria dos espíritos encarnados já se encontra no patamar dos bons. A pergunta é: onde estão eles? Por que não reagem? Estamos vivenciando um período nebuloso em nosso país onde os maus, mesmo sendo minoria, estão tomando conta, estão “deitando e rolando” enquanto os bons ainda  permanecem passivos, inertes, achando que os bons espíritos, tendo Jesus no comando, irão resolver nossos problemas. É mais fácil e cômodo deixar tudo nas mãos de Deus. Na verdade, estamos deixando tudo nas mãos dos maus.

Questionado mais de uma vez sobre esta incerteza e instabilidade hoje instalada no Brasil, Divaldo Pereira Franco foi enfático ao afirmar: A Doutrina Espírita é apolítica, porém, o movimento espírita deve sim se manifestar, não aceitando imposições de políticos e governantes maus, e conclui dizendo: Temos que reagir.  Entendo que a reação virá dos bons.

Outra pergunta feita a Divaldo, que se encontra numa mensagem dos textos do programa radiofônico “Momento Espírita”, foi sobre se devemos ou não chamar a atenção de algum companheiro, e que pode ser até mesmo de um centro espírita, que está fazendo algo imoral ou incorreto. Divaldo disse que sim. Se a pessoa está errada, deve ser chamada atenção. Evidentemente que isso feito com respeito e carinho. Mas há a necessidade de advertência, a fim de não continuar cometendo o mesmo erro.

- E se ela ficar chateada? Resposta de Divaldo: “Se ela ficar chateada é problema dela. O que não podemos é deixar o mal triunfar por receio”.

Divaldo foi muito feliz e inspirado, como sempre. Não deixar o mal triunfar.

Acordemos, repensemos e contextualizemos a questão 932 de “O Livro dos Espíritos”, não tendo medo de reagir à maldade. Reação não significa necessariamente agressão. Significa, sim, atitude. Orar apenas, por mais sincera que seja a intenção, não resolve. Deus e os bons Espíritos nos ajudam a partir do momento que nós aceitemos que já podemos nos considerar como bons e tomar atitudes contra quem instiga o mal.

Talvez a  dificuldade de se aceitar algumas constatações óbvias sobre nossa conduta enquanto espíritas exista em função de parte do movimento da doutrina não se atualizar acerca de interpretações mais profundas sobre os conceitos levantados há séculos e, com isso, quebrar alguns paradigmas, romper barreiras e ser progressistas. 

Se desejamos realmente agir como bons que somos devemos abrir as portas das casas espíritas para a realidade, não fugir de temas polêmicos, porém atuais. Não sejamos reféns de uma pseudo sabedoria; deixemos a demagogia de lado e não tenhamos medo de falar nas casas espíritas sobre assuntos não aceitos e que ainda são tabus para alguns dirigentes. Façamos nossa parte agora para não sofrermos depois.

Qual seria a atitude do espírita que se considera bom ou se esforça para ser? Manifestações pacíficas quando o momento exigir mudanças em prol da sociedade como um todo, política ou socialmente.  Se sozinhos não conseguimos, criemos ou participemos de ONGs, associação de moradores, grupos de manifestantes, visando as mudanças almejadas. Talvez agora seja o momento ideal para nos colocarmos como bons. Comecemos por nós, dando o exemplo através de nossas atitudes. Com certeza iremos num primeiro momento sofrer retaliações ou advertências. Paciência, o problema é deles, não nosso.

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