ADE-PR: Associação de Divulgadores do Espiritismo do Paraná

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Jornal Comunica Ação Espírita | 84ª edição | 03 de 2011.

Divulgar com Eficiência

Quem não se comunica...

                                                                            Joana Abranches (*)

joanaabranches@gmail.com

 

Há 152 anos a Doutrina Espírita vem consolidando sua credibilidade no mundo, sobretudo, porque as descobertas científicas têm caminhado, passo a passo, com muitas das verdades já há tanto propagadas por Kardec.  Avançamos. Se ontem as pessoas corriam dos espíritas, hoje correm para nós, atrás de respostas que só “O Consolador” pode dar.

 

Mais que nunca é preciso divulgar o Espiritismo. Mas divulgar não é empurrar material doutrinário goela abaixo. É antes de tudo comunicar-se, estabelecer empatia imediata com o receptor, despertar interesse inicial, contínuo e gradativo pelo material apresentado, é fazer-se entender e sentir. Assim, há que se ter uma abordagem minimamente adequada para que se consiga tocar a alma e chegar à razão.

 

Faz-se urgente uma reflexão. Conseguiremos alcançar corações e mentes, em pleno século XXI, sem atualizar nossas formas de comunicação? A pretexto de fidelidade doutrinária, campeia entre nós um linguajar monótono e obsoleto. Incrivelmente, ainda há quem acredite que ser fiel à codificação se resume à manutenção da linguagem utilizada por Kardec no século retrasado ou das mesmas formas de expressão utilizadas nas décadas de 40 a 60 - apogeu da produção mediúnica de Chico Xavier – causando a incômoda impressão de que estamos parados  no tempo.

 

Lendo o editorial de um periódico federativo, dei de cara com a palavra “efemérides”, entre outras expressões arcaicas que recheavam o texto, e fiquei a pensar que se a mim, que já passei dos cinquenta, soa estranho, que dirá ao pessoal da nova geração, o qual certamente teria que dar tratos à bola para decifrar o que significa tal “palavrão”, praticamente extinto nos dias de hoje.

 

Essas situações comprometem a continuidade da leitura, pois a chamada leva a pressupor com razão um texto maçante. Quem vai se interessar por matérias cujos termos remetem ao tempo dos nossos bisavós, o que - com todo o respeito que devemos aos nossos ascendentes - nada têm a ver com os anseios do momento presente?

 

Como podemos querer o aval da comunidade científico-tecnológica se em plena era virtual insistimos chamar planeta de “orbe”, só porque Emmanuel, na década de 50 assim o fez? Se, rebuscadamente, nos referimos à sociedade “hodierna”, citada por Joanna de Ângellis, quando poderíamos simplesmente utilizar o termo “moderna”, de mais fácil compreensão? Passa da hora de aposentarmos os ósculos, amplexos, destras e outras expressões “jurássicas”.

 

Não pretendemos fazer apologia das gírias, do modernismo inconsequente. Mesmo porque a palavra escrita ou falada na norma culta, dentro de uma relativa formalidade, é passaporte certo para a credibilidade. Mas precisamos repensar o nosso linguajar enquanto palestrantes e redatores espíritas para que não nos escondamos numa espécie de dialeto esquisito que só leva à estagnação e ao isolamento. Se não devemos vulgarizar a palavra a pretexto de atingir a massa, tampouco devemos permanecer como se o tempo não tivesse passado para nós.

 

Se o que mais almejamos é universalizar o conhecimento espírita, por que não utilizar linguagem mais coloquial e interessante? Desde que se tenha o zelo necessário para que não haja distorções no conteúdo doutrinário, por que não adaptar textos antigos para uma linguagem moderna, facilitando o entendimento às novas gerações e àqueles que têm maior limitação intelectual?

 

Alguns companheiros são resistentes às adaptações por entender que a manutenção de termos difíceis provoca um enriquecimento da linguagem. Mas imaginemos alguém ainda engatinhando no conhecimento espírita, buscando consolo num momento de dor, se deparar com linda e consoladora mensagem, porém, cheia de termos rebuscados que exijam o uso do dicionário. Parar tantas vezes para buscar o significado das palavras esvaziará o impacto emocional do conteúdo, esfriando o coração do leitor. Emoção cortada, alma frustrada, objetivo perdido.

 

Nosso compromisso é com a formação espiritual e não acadêmica. Embora tenhamos o dever de nos expressar elegantemente e estimular doutrinariamente o aprimoramento do saber, contribuindo para a intelectualização do ser, precisamos entender que trabalhar na aquisição de vocabulário e erudição não é nossa prioridade. Esta é esclarecer e consolar com vistas ao progresso moral e ninguém esclarece ou consola sem usar de clareza e simplicidade.  Didaticamente, simplifiquemos a fala e a escrita, façamos o papel de facilitadores das verdades espirituais e deixemos às escolas do mundo o papel que lhes cabe.

 

Sob pena de perdermos o trem da história, há uma contradição que precisa ser vencida pelo movimento espírita. Uma doutrina evolucionista, por princípio não pode e não deve ficar parada no tempo. Termos novos são criados a todo o momento para coisas novas e antigos substituídos por outras nomenclaturas. Caminhamos para uma democratização do conhecimento. O que antes era privilégio de uma casta intelectual, agora é direito de todos. Significa distribuição mais justa da informação e oportunidades igualitárias, correspondendo aos ideais de justiça e igualdade defendidas pelo Espiritismo. Não faz sentido uma elitização que só retarda a colheita dos frutos semeados.

 

O mundo gira, o progresso está aí e a lei é de evolução em todos os sentidos. Descomplicar é a palavra de ordem para quem quer “colocar a candeia sobre o alqueire.” Não há mais espaço para termos antiquados que soam até de forma ridícula a quem os lê. Ou continuamos a bater na tecla de uma erudição exibicionista a fim de receber galardão aqui ou optamos pela pedagogia simples de Jesus, cujas parábolas demonstram estratégia ímpar para alcançar o interesse e o entendimento popular quanto às verdades espirituais.

 

Nesse momento difícil de transição, em que milhares de irmãos nossos precisam, desesperadamente, estabelecer um link emocional e cognitivo imediato com as verdades consoladoras do Espiritismo, não há mais lugar para comportamentos arraigados a tradições pueris.

 

Deixemos fluir a simplicidade culta que nos fará fiéis articuladores da verdadeira divulgação que dá resultados palpáveis, ao falar simultaneamente ao cérebro e à sensibilidade.  Pratiquemos na íntegra as recomendações contidas no cap. XII, item 10 do ESE, em “O Homem no Mundo”, que conclama: “Vivei com os homens do vosso tempo, como devem viver os homens”. Numa vida de inter-relação, respeito e comunicação fazem toda a diferença.

 

 (*) Assistente Social, escritora e presidente da Sociedade Espírita Amor Fraterno  de Vitória-ES.

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