ADE-PR: Associação de Divulgadores do Espiritismo do Paraná

Especial

Marca de nascença no menino Ian é evidência a favor da reencarnação. Assista o vídeo clicando aqui.

Jornal Comunica Ação Espírita | 121ª edição | 08 de 2017.

A hora da morte: determinística?

Por Carlos Augusto Parchen

Um ponto polêmico que tem trazido acirradas discussões dentro de muitas Casas Espíritas é a questão da “hora da morte”. 

Muitos espíritas acreditam e defendem ardorosamente a posição de que existe uma programação ou pré-determinação para o instante da morte (ou seja, que existe uma data e uma forma específica para tal), e que isso está explicitado no “Livro dos Espíritos”. 

Outro grupo, também numeroso, acredita e defende sua posição de que, em sendo o livre arbítrio inviolável e a vontade constituindo a determinante dos rumos da vida, não se tem pré-determinada ou programada a morte, sendo determinístico apenas “que se vai morrer”, pois que essa (a morte) é inevitável.

Sem pretender esgotar o assunto, e objetivando contribuir com a reflexão e discussão de tão interessante temática, apresentaremos uma abordagem pessoal sobre a questão.

Os defensores de que existe uma programação, de forma inevitável (determinística), para o instante e a forma da morte, baseiam-se em algumas questões do “Livro dos Espíritos”, em especial as que apresentaremos a seguir (todos os grifos foram colocados por este autor).

Na questão nº 738b, temos a seguinte resposta: “... Quer a morte chegue por um flagelo ou por uma outra causa, não se pode escapar quando a hora é chegada...”.

Na questão nº 853, pergunta-se: “... Algumas pessoas mal escapam de um perigo mortal para logo cair em outro; parece que não teriam como escapar à morte. Não há fatalidade nisso?...”. Resposta: “... A fatalidade só existe, no verdadeiro sentido da palavra, apenas no instante da morte. Quando esse momento chega, seja por um meio ou por outro, não o podeis evitar...”.

Na questão nº 854, apresentada como: “... Por causa da inevitável hora da morte, as precauções que se tomam para evitá-la são inúteis?...” Resposta: “... Não. As precauções que tomais são sugeridas para evitar a morte que vos ameaça, são meios para que ela não ocorra...”.

Sabemos que não se pode (e não se deve) estabelecer conclusões assertivas apenas com a leitura parcial de trechos “pinçados” desta ou daquela obra, pois isso seria um empobrecimento do conhecimento e da busca da verdade, o que não condiz com os princípios estabelecidos por Kardec para a busca do conhecimento: análise lógica e crivo da razão. 

Na Doutrina Espírita, é necessário estudar o seu conjunto, as cinco obras básicas, e fazer a análise de forma contextualizada, ao se considerar os 160 anos que separam o “Livro dos Espíritos” dos tempos atuais.

Nesse enfoque, apresentamos um contraponto às questões anteriormente apresentadas, retiradas do próprio “Livro dos Espíritos”.

Na questão nº 856, tem-se: “... O Espírito sabe por antecipação como desencarnará?...” Resposta: “... Sabe que o gênero de vida escolhido o expõe a desencarnar mais de uma maneira do que de outra. Sabe igualmente quais as lutas que terá de enfrentar para evitá-la e, se Deus o permitir, não fracassará...”.

Na questão nº 859 é apresentada a seguinte resposta: “... A fatalidade, verdadeiramente, consiste apenas na hora em que deveis nascer e morrer...”.

Na questão nº 860, tem-se: “... O homem, por sua vontade e ações, pode fazer com que os acontecimentos que deveriam ocorrer não ocorram, e vice-versa?...” Resposta: “... Pode, desde que esse desvio aparente caiba na ordem geral da vida que escolheu...”.

Na questão nº 851, apresenta-se: “... Haverá fatalidade nos acontecimentos da vida, conforme o sentido que se dá a essa palavra, ou seja, todos os acontecimentos são predeterminados? Nesse caso, como fica o livre-arbítrio?...” Resposta: “... A fatalidade existe apenas na escolha que o Espírito fez ao encarnar e suportar esta ou aquela prova...”.

No Capítulo 5, coloca Kardec: “... O ponto essencial é que o ensinamento dos Espíritos é eminentemente cristão. Apóia-se na imortalidade da alma, nas penas e recompensas futuras, na justiça de Deus, no livre-arbítrio do homem, na moral do Cristo...”. 

No Capítulo 7, afirma Kardec: “... O Espírito sempre desfruta de seu livre-arbítrio. É em virtude dessa liberdade que escolhe as provas da vida corporal. Uma vez encarnado, delibera o que fará ou não e escolhe entre o bem e o mal. Negar ao homem o livre-arbítrio seria reduzi-lo à condição de uma máquina...”.

Evidencia-se, na análise criteriosa das questões do “Livro dos Espíritos” e demais obras, pois é um princípio basilar do Espiritismo, que o Livre Arbítrio é que determina todo o processo reencarnatório dos espíritos, sendo o mesmo inviolável. 

Essa é uma questão filosófica e consoante com a Justiça Divina, que não pode ser colocada em dúvida sem duvidar também dos próprios alicerces da Doutrina Espírita, apresentados tão bem por Kardec nos Capítulos 5 e 7 (trechos apresentados anteriormente).

Parece-nos ser bastante perceptível que, quando aborda o “... instante da morte...” ou ainda “... não se pode escapar quando a hora é chegada...”, o “Livro dos Espíritos” não afirma e nem sugere que existe uma programação para tal, uma determinação de que isso tem uma forma e um momento para ocorrer. 

A morte só pode ser considerada determinística porque ocorrerá e não se tem como evitar isso. O próprio nascimento é determinístico, pois que, para encarnar, tem-se que nascer.

Pode-se, portanto, afirmar que existe “um momento da morte” (ela ocorrerá inexoravelmente), mas não “o momento da morte” (ou seja, que ela está determinada e programada previamente).

Sabemos que a questão é polêmica e já escrevemos pelo menos outros dois artigos sobre o assunto, com argumentos lógicos que reforçam nossa crença pessoal, que passam pela razão e que encontram apoio nas Obras Básicas. Mas não pretendemos ser (e nem somos) “donos da verdade”. Apenas estamos apresentando à consideração dos leitores um outro ângulo (abordagem) da questão.

Ficaremos felizes se este artigo puder trazer à tona mais reflexões, análises e conclusões, mesmo que essas últimas sejam completamente diferentes das aqui apresentadas.

Isso manifestará uma das belezas do Espiritismo, o “Livre Pensar”, o saber que a “verdade” é apenas o nosso conhecimento pessoal, internalizado, criticado, refletido, aceito com convicção. Nesse aspecto, a “verdade” sempre será pessoal, mas verdadeira, até que a evolução, ao longo dos milênios, nos leve a conhecer a “verdade completa”, que é única e universal. 

Tudo nos une, nada nos separa.

 

(1) Eng. Agrônomo, Prof. Dr., palestrante e articulista espírita c_a_parchen@yahoo.com.br

Receba em casa a versão impressa do jornal Comunica Ação Espírita

Assine agora mesmo

ADE-PR © 2017 / Desenvolvido por Leandro Corso