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Marca de nascença no menino Ian é evidência a favor da reencarnação. Assista o vídeo clicando aqui.

Jornal Comunica Ação Espírita | 131ª edição | 01 de 2019.

Somos nós mesmos ou um pouco de cada um dos outros?

Por Wilson Czerski

Infelizmente, o “livre-arbítrio” não é uma realidade científica. É um mito herdado da teologia cristã. Os teólogos desenvolveram a ideia do “livre-arbítrio” para explicar por que Deus tem que punir os pecadores por suas escolhas ruins e recompensar por suas escolhas boas... Segundo os teólogos, é razoável que Deus faça isso, porque nossas escolhas refletem o “livre-arbítrio” de nossas almas eternas, que independem de quaisquer restrições físicas ou biológicas...

Você não tem a prerrogativa de decidir que desejos terá. Não decide se vai ser introvertido ou extrovertido, descontraído ou ansioso, gay ou hétero. Os humanos fazem escolhas – mas elas nunca são independentes. Cada escolha depende de um monte de condições biológicas, sociais e pessoais que você não é capaz de determinar por si mesmo. Sou capaz de decidir o que vou comer, com quem me casar e em que quem votar, mas essas escolhas são determinadas em parte por meus genes, minha bioquímica, meu gênero, meu contexto familiar, minha cultura nacional, etc, e eu não escolhi quais genes ou qual família ter...

Apenas observe o próximo pensamento que surgir em sua mente. De onde ele veio? Você escolheu livremente pensar nisso?... Se você observar cuidadosamente sua mente, vai se dar conta de que tem pouco controle sobre o que está acontecendo lá e de que não está escolhendo livremente o que pensar, o que sentir e o querer...

Desde a antiguidade, sábios e santos aconselhavam repetidamente às pessoas “conhece-te a ti mesmo”, mas nos tempos de Sócrates, Buda e Confúcio...

Dar-se conta de que nossos pensamentos e desejos não refletem nosso “livre-arbítrio” pode nos ajudar a ficar menos obsessivos quanto a eles... Quando damos muita importância a nossos desejos, vamos naturalmente tentar controlar e formatar o mundo inteiro de acordo com eles. Vamos travar guerras, derrubar florestas...

(...) renunciar a essa ilusão pode ter dois efeitos contrários: primeiro, pode criar uma conexão mais forte com o resto do mundo... Segundo, renunciar ao mito do “livre-arbítrio”. Se você se identifica fortemente com os pensamentos e desejos que surgem em sua mente, não faz muito esforço para conhecer a si mesmo. Mas, quando percebe que é apenas um fenômeno de mudança bioquímica... você se dá conta de que não tem ideia de quem é...

(...) Antes não tínhamos a tecnologia... Antigos problemas de filosofia estão se tornando agora problemas práticos de engenharia e de política...

Estes são trechos de um artigo na revista Veja, edição de 02 de janeiro, do historiador israelense Yuval Noah Harari, considerado um fenômeno intelectual e autor de obras como Sapiens, Homo Deus e Lições para o século XXI, este com mais de 15 milhões de exemplares vendidos em todo planeta.

Agora interrompa e responda, por favor: o que você achou do que leu acima? Com boa vontade, é possível concordar com alguma coisa, não é mesmo? Além do mais, o ideal seria ler o artigo na íntegra.

Tentarei contribuir com algumas ideias. E vamos seguir na mesma ordem do ilustre autor para só depois fixar uma conclusão. 

Posso não ter entendido direito, mas o historiador parece ter propositadamente desprezado um segmento significativo da própria História. Atribui o aparecimento do “livre-arbítrio”, grafado sempre assim, entre aspas, a uma única religião, o que não é verdade. Com todo o respeito, gostaria de contrapor às suas ideias as contidas no meu livro “Destino: determinismo ou livre-arbítrio” (Editora EME, 2011).

Esquece ele que o conhecimento possui outras vias além do “científico”. O conceito e os debates em torno da autonomia individual estão presentes entre os filósofos e nas religiões orientais muito antes do cristianismo. Na seara da filosofia, tanto na Antiguidade como nos dias de hoje não há consenso, divididos que estão os pensadores sobre a existência ou não do livre-arbítrio. Mas poderíamos começar com Pitágoras no século VI a.C., passando por Demócrito, Sócrates, Platão, Aristóteles e muitos outros.

Depois ele afirma que não possuímos o poder de escolha sobre nossos desejos ou definir o temperamento e que as escolhas que dependem de condições biológicas, sociais e pessoais que vão além da decisão sobre o que comer, com quem casar, etc.

Aqui ele está parcialmente correto. Nosso livre-arbítrio é relativo e não absoluto e o meio em que fomos colocados, local de nascimento, as condições socioeconômicas e políticas do país, clima, limitam o exercício da vontade individual. Porém, quanto aos desejos, estes são moldados de dentro para fora. A influência sofrida do ambiente, da mídia, dos costumes sociais é forte, mas não determinante. Sempre podemos inibir e transformar certos desejos. A razão deve se sobrepor aos impulsos instintivos.

Ao contrário do que ele diz, nossas escolhas não são determinadas pelos genes, pela bioquímica, família ou cultura. Tudo isso são efeitos e não causas. Carregamos conosco aquilo que herdamos de nós mesmos. Então, agora ficou fácil descobrir onde está o seu maior equívoco. Ele ignora a reencarnação. A essa altura, sou tentado a chamá-lo de pseudossábio. 

Não somos livres para pensar? Os Espíritos na Codificação afirmam que, embora “frequentemente sejamos influenciados pelas mentes desencarnadas muito mais do que imaginamos”, a expressão mais autêntica de liberdade é justamente o pensamento. Claro, fruto de toda a bagagem espiritual acumulada nas múltiplas reencarnações no transcurso dos milênios e também do contexto atual, mas o “próximo pensamento” não surge do nada, ele emerge da nossa alma. 

Paradoxalmente ao desconhecimento do Sr. Yuval Noah Harari sobre a transcendência do espírito, ele serve-se do socrático “conhece-te...”. Ampara-se nesse conceito para recomendar a autoavaliação comportamental, ao partir-se de uma visão egoísta do mundo para o abrir-se para os problemas do mundo e necessidades dos outros.

O recado principal do texto é demonstrar que atualmente estamos vulneráveis ao que ele chama de hackeamento cerebral, tanto para o exercício de um domínio alheio sobre nossos desejos de consumo como de manipuladores ideológicos.

Quando navegamos na internet estamos o tempo todo sendo ‘avaliados’ sobre produtos que gostamos ou deixamos de gostar, preferências culturais, posicionamentos políticos, valores familiares, hábitos sociais, etc. Nisso tudo, o historiador vê risco à independência individual, pela não existência do livre-arbítrio, e ao liberalismo político pela ação de hábeis “vendedores” de ideias e

valores nefastos à democracia.

Uma pergunta: se a preocupação com o bem-estar de nossos semelhantes é decorrência do liberalismo político – nova virtude moral a ser conquistada – essa tal poderia ser tomada como sinônimo de solidariedade, fraternidade, talvez?

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