ADE-PR: Associação de Divulgadores do Espiritismo do Paraná

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Jornal Comunica Ação Espírita | 132ª edição | 03 de 2019.

As curas espirituais e os espíritas

Em OLM, no item 175, Kardec define o médium curador como sendo aquele capaz de curar “somente pelo toque, pelo olhar, por um gesto”. Um pouco adiante, no item 189, no quadro sinótico, ele complementa falando em “curar ou aliviar os males pela imposição das mãos ou pela prece”.

Das respostas dos Espíritos, ainda no item 175, depreendemos que o magnetismo tem um papel fundamental nos processos de curas não convencionais. Muitos indivíduos são dotados da capacidade de curar às expensas exclusivas de seus recursos pessoais. Entretanto, é sempre possível que suas energias sejam aumentadas e melhor qualificadas pelos Espíritos, o que os podem fazer médiuns sem o saberem.

Na Revue Spirit de agosto de 1867, o Codificador replica uma matéria do jornal Fígaro, do dia 5 de julho daquele mesmo ano sobre o julgamento do “Médium curador de Bordeaux”. Na verdade, o réu não era ele e sim, outras pessoas, proprietárias do local no qual o médium, tido pelas autoridades como feiticeiro, fazia os atendimentos, de 1.000 a 1.200 por dia.

Em troca do uso do local e de abrigar o próprio médium como moradia, tais pessoas foram acusadas de tirar algum proveito da situação, explorando comercialmente os pacientes aos lhes fornecer comida e bebida durante suas estadas ali. O médium Simonet, marceneiro de profissão, era espírita e foi convocado na condição de testemunha. 

Na edição de outubro da Revue, Kardec narra o caso da condessa de Clérambert que possuía profundos conhecimentos da ciência médica, embora, ao que parece, não fosse diplomada. Mas o detalhe é que ela era também médium de curas. Kardec prefere classificá-la como “médium- médico”.

Clarividente, inspirada, indicava principalmente plantas para curar “epilépticos e doentes de afecções agudas ou crônicas, abandonados pelos médicos”.

Por isso, logo mais a frente, na mesma edição, Kardec volta ao tema sob o título “Médicos-médiuns” e, além de procurar diferenciar estes dos médiuns-médicos, dirá muitas coisas interessantes sobre a sua convicção de que no futuro “a ciência e a mediunidade se prestariam mútuo apoio”.

Afirma, por exemplo, de que a mediunidade curadora não matará a medicina nem os médicos; que sempre haverá médiuns curadores, mas serão menos numerosos e menos à medida que aumentar o número de médicos-espíritas. Esclarecerá sobre o direito de cobrar pelo trabalho dos médicos-médiuns, mas não dos outros que dão daquilo que recebem gratuitamente, ou seja, a faculdade mediúnica.

E dirá, por fim, que a faculdade de cura, dada muitas vezes a indivíduos sem formação acadêmica ou cultural enquanto muitas vezes os profissionais são incapazes de fazê-lo, seria um modo de lhes provar que não sabem tudo e de que há leis naturais além das reconhecidas.

Mas Kardec ocupou-se já bem antes disso e muitas vezes com este tema. Na edição de abril de 1860 ele faz publicar as “Cartas do Dr. Morhéry sobre a Srta. Désirée Godu”, referindo-se às suas faculdades curadoras, sendo que as primeiras notícias haviam sido dadas já na edição anterior. Na palavra do remetente, médico de profissão, muitas destas curas protagonizadas pela jovem médium de 25 anos, haviam ocorrido sob suas vistas e incluíam até um caso de câncer de lábio.

O Dr. Morhéry, membro da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, enviou no dia 25 de abril uma espécie de relatório com o resumo de 12 casos, todos certificados por ele como absolutamente autênticos, de curas realizadas pela médium Désirée Godu entre 23 de fevereiro e 19 de março de 1860. Kardec dá à publicação esse material na edição de maio.

Os casos, informa o médico, haviam sido selecionados entre cerca de 200 e diziam respeito a afecções reumáticas, paralisias, úlceras, ciáticas, desvios ósseos. Alguns dos problemas eram crônicos de mais de 15 anos e resistiam a todos os tratamentos havia seis anos.

Ao tecer comentários a respeito – prestem atenção – Kardec diz: “Como homem sensato (o médico), prefere salvar um doente por meios aparentemente irregulares, do que deixá-lo morrer segundo as regras”.

Em agosto de 1862, Kardec informa que havia sido curado de um grave problema oftalmológico por uma magnetizadora. Em setembro de 1865 ele se refere aos médiuns receitistas ou “consultores”.

Na edição de outubro de 1866, o assunto curas espirituais é retomado com o caso do zuavo (soldado da infantaria da Argélia a serviço do exército francês) que repercutiu em vários jornais. Ao final, o Codificador cita previsões dos espíritos que “desde longa data anunciaram que a mediunidade curadora desenvolver-se-ia em proporções excepcionais...”.

E reforça sua convicção quando uma vez mais trata do assunto, isso na edição de junho de 1867, analisando o “Grupo Curador de Marmande”, ao afirmar: “É a vulgarização anunciada da mediunidade curadora... os Espíritos são engenhosos nos meios tão variados, que empregam, para fazer penetrar a ideia nas massas”.

Mais uma vez Kardec volta ao assunto na edição seguinte e retifica uma informação recebida sobre estimativas de curas do zuavo: de 4.000 pessoas atendidas, um quarto não havia experimentado melhora alguma; e dos 3.000 restantes, um quarto havia sido curado e os três quartos restantes aliviados.

“A mediunidade curadora não vem suplantar a medicina e os médicos – diz Kardec -, nem simplesmente provar a estes últimos que há coisas que eles não sabem... De todas as faculdades mediúnicas, a curadora vulgarizada é a que está chamada a produzir mais sensação porque há, por toda parte, doentes em grande número, e não é a curiosidade que os atrai, mas a necessidade imperiosa de alívio... Além disso, a mediunidade escapa completamente à lei sobre o exercício legal da medicina, desde que não prescreve qualquer tratamento”.

Ainda naquele ano, edição de dezembro, mais uma vez em destaque a mediunidade de cura, desta vez de um sacerdote e príncipe de Hohenlohe, personagem não contemporâneo ao desenvolvimento da Doutrina Espírita, pois o referido médium já havia desencarnado. Aliás, à narrativa das curas do príncipe, seguiu-se por Kardec uma mensagem de seu espírito na própria SPEE.

De tudo o visto até agora, podemos concluir que Kardec estava muito longe de condenar as curas. Claro que, estudioso aberto à investigação fenomenológica, ele não podia descartá-las sem examinar as circunstâncias envolvidas em cada caso. E embora buscasse sempre fazer acompanhar os relatos descritivos de recomendações pertinentes quanto às virtudes exigidas dos médiuns que as protagonizavam, em momento algum lhes subestimou o valor.

Então, por que o Movimento Espírita parece ter desenvolvido uma verdadeira ojeriza em relação às curas espirituais? Talvez porque, em geral, os médiuns que atuam nessa área, ainda que involuntariamente ou mesmo forçados pelas proibições oficiais, acabam por desafiar a autoridade dos dirigentes que se julgam legitimados para decidir o que é permitido ou não fazer em nome do Espiritismo.

Atuando à revelia do movimento federativo e isolados muitos deles, correm o risco de se perderem no caminho, expondo-se a diversas possibilidades de emprego inadequado da faculdade. Isso pode ocorrer tanto por interesses econômicos como pela ausência de controle externo que possa detectar, por exemplo, o emprego de métodos eticamente discutíveis ou dos resultados apresentados que podem ser falseados ludibriando a boa-fé das pessoas.

Isolando-se, uns por interesse, e outros induzidos pela falta de aceitação pelo movimento oficial do uso desta faculdade mediúnica, mais reforçam a situação de marginalidade.

Mas vejamos alguns pontos que não têm sido devidamente considerados quando se trata das curas espirituais em geral. Primeiro há que se mencionar a existência de vários tipos de métodos ou ações nas práticas da mediunidade curativa.

Como sabemos, nas instituições espíritas tradicionais os únicos tipos aceitos são o passe e a água fluidificada. No outro extremo, recebendo ampla condenação, estão as cirurgias com incisões. Entre elas, porém, há outras e não estamos nos referindo a práticas estranhas ao Espiritismo como cromoterapia, por exemplo. 

Há as intervenções dos passes coletivos e os individualizados com movimentos ou toques. Em certos locais o paciente é deitado em macas e recebe passes longitudinais e transversais e outras variantes. Em outros há receituário homeopático ou fitoterápico, com ou sem supervisão de um médico. Em alguns casos há um pouco de tudo, inclusive de ações desobsessivas.

Uma das alegações para se condenar essas atividades é a de que o Espiritismo possui outras finalidades mais elevadas que as de simplesmente cuidar do corpo físico. Antes de mais nada é preciso dizer que, quase sempre os atendimentos especializados são precedidos por palestras evangélicas e orientações sobre o valor da oração e necessidade dos atendidos buscarem operar mudanças de vida capazes de as libertar não somente dos efeitos, mas também das causas do presente ou mais remotas de seus problemas. Fé, paciência, tolerância, perdão são recomendados.

Embora a ignorância dos processos empregados contribua para uma visão mística dos fenômenos e dos médiuns, procura-se não deixar que se construa a ideia de milagre.

Fala-se tanto em caridade em nosso meio, mas a compreensão e fraternidade escasseiam na hora de julgar aqueles que procuram essas alternativas de tratamento para seus males. Esquecemos que muitas vezes as pessoas recorrem a elas como uma última esperança. Em um país com um sistema de saúde pública ineficiente, muita gente se vê às voltas com problemas que os médicos não conseguiram ou não souberam resolver.

Contam-se aos milhares os casos em que ocorreu o diagnóstico da medicina para uma doença grave, mas houve desistência de tentar a cura por considerar inútil ou impossível ou, ainda, por conta da falta de recursos. Bem verdade, que muito já se fez nessa área, inclusive com a distribuição gratuita de medicamentos para certas enfermidades, mas doenças raras requerem que a família entre na justiça para exercer o seu direito.

De outras vezes, mesmo em situações mais simples, porém não menos desconfortável à vida das pessoas, os médicos erram no diagnóstico porque, sim, ignoram as raízes espirituais dos males somatizados, mas cuja gênese encontra-se na alma e na memória milenar do indivíduo. 

Portanto, é cômodo criticar quando não se está doente, se possui um bom plano de saúde, acesso fácil a especialistas e à medicação. Aliás, não são poucos os casos de dirigentes de centros espíritas que assumem essa postura crítica em relação aos atendimentos de cura, mas reconhecem prontamente os caminhos que a eles conduzem quando sofrem, atingidos pessoalmente ou alguém da família, por algum tipo de problema que supostamente está além da capacidade dos médicos ou por querer fugir dos tratamentos convencionais.

Enxaquecas crônicas resistentes a tratamentos, problemas de coluna, depressão, dificuldade para engravidar, insônia, gastrite, magreza excessiva, artrite, doenças de pele, sinusite, arritmias cardíacas e muito, muito mais. 

Ressalte-se aqui o papel importantíssimo das Associações Médico-Espíritas, mais de uma centena pelo Brasil afora, tanto pelo trabalho de pesquisa como de orientação ao público em geral, mas principalmente, pela influência no meio acadêmico fazendo penetrar neste meio a ‘novidade’ do espírito para a saúde do corpo e da mente.

Se a mediunidade de cura não fosse útil e necessária, ainda atualmente, não haveria médiuns com essa faculdade desenvolvida. Geralmente, ela surge nesses médiuns espontaneamentecom clara característica de tarefa missionária.

Se a possuem, se há espíritos benevolentes, sérios e caridosos atuando através deles é porque são não necessários. E não será porque um ou outro comete abusos ou excessos que todos eles devem ser estigmatizados. 

Enfim, da mesma maneira que se diz que, em termos de assistência e promoção social, ao faminto primeiro se deve ofertar o peixe para só depois a vara e o ensino da pesca, em relação às curas espirituais, muito teremos todos nós que evoluir até podermos prescindir da medicina do corpo, cuidando tão bem do espírito que aquele não mais adoeça. Enquanto isso, se a mediunidade de curas puder contribuir para o êxito da missão daquela, tanto melhor, até porque cuida dos dois – corpo e espírito – simultaneamente

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