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Jornal Comunica Ação Espírita | 69ª edição | 09 de 2008.

Por que os espíritas devem assistir ao filme sobre Bezerra de Menezes: a diferença entre opção cultural e obrigação

Por Fernando Clímaco Santiago Maciel

Depois de alguns e-mails convidando para o filme sobre Bezerra de Menezes que breve estará em cartaz, não pude deixar de perceber o tom de APELO presente nestas mensagens, convocando os espíritas para que compareçam maciçamente garantindo uma boa bilheteria e o filme por mais tempo em cartaz.

Não tenho dúvidas na excelente intenção de todos, mas a reflexão pareceu-me inevitável sobre a metodologia e sobre a capacidade de comunicação do Movimento Espírita com a sociedade.

O cinema é um dos meios universais de comunicação e não vejo como "produzir" platéia artificialmente, lotando as salas de espíritas que, "por dever" ou "por caridade" pretendam esticar a temporada do filme nas telonas, e isso porque ele estará sujeito às mesmas "leis" da audiência: se o filme for bom e cativa-la, atrairá naturalmente o grande público, do contrário, a bilheteria vai ser pequena como funciona para qualquer outro filme. Um bom roteiro, a atuação destacada dos atores e a emoção gerada pelo filme é que vão definir o público.

Cabe-nos refletir como líderes, formadores de opinião, no modus operandis da nossa divulgação doutrinária que tem circulado quase que exclusivamente de espíritas para espíritas, sem conseguir dialogar com a sociedade:

Espíritas oradores fazem palestras para espíritas que dizem 'assim seja' no final. Espíritas ensinam nos seminários e fóruns para espíritas que assistem e aplaudem. Espíritas e espíritos publicadores escrevem seus livros para espíritas leitores que lêem e compram outro livro espírita logo em seguida.

Espíritas compositores escrevem suas músicas espíritas para espíritas que ouvem e aplaudem os músicos espíritas. Espíritas atores protagonizam romances espíritas para espíritas que assistem e aplaudem enquanto aguardam a próxima peça espírita para ir ao teatro de novo.

E mais: a linguagem que utilizamos na maioria destes momentos de comunicação é um português recodificado para um dialeto, que os próprios espíritas não utilizam no cotidiano, repleto de expressões e ênfases incomuns, linguagem rebuscada e cheia de sinônimos desnecessários e de difícil compreensão para a maioria das pessoas.

O consultor Gustavo Cerbasi, colunista da Revista Você S/A relata, a propósito, uma experiência pessoal quando era "trainee" numa empresa e viu-se diante da necessidade de produzir relatórios de análise financeira para a diretoria. Um colega mais experiente faria a análise e cabia-lhe escrever o relatório. Pouco familiarizado com a área e mau aluno confesso da disciplina na graduação, produziu relatórios que, corretos do ponto de vista da análise, tinham uma linguagem pouco usual ao meio. Para surpresa de todos, o setor começou a receber elogios pelos "novos relatórios" com a seguinte observação: “finalmente vocês estão escrevendo relatórios que podem ser entendidos por qualquer pessoa, com uma linguagem acessível a todos”.

Livre dos jargões e vícios de linguagem dos mais experientes, comunicou-se de forma mais eficaz com o público leigo. E isso não pelo que aprendeu, mas pelo que deixou de aprender. Talvez precisemos desaprender um pouco do nosso "espiritez" para comunicar melhor com a sociedade, com estratégias de comunicação inspiradas no cotidiano e uma linguagem que seja compreendida por todos.

Precisamos desaprender um pouco o "Espiritez" para comunicar melhor com a sociedade. Outra questão é a qualidade. Raras vezes a questionamos na comunicação Espírita como fazemos em outros meios

Outra questão é a QUALIDADE. Raras vezes a questionamos na comunicação espírita como fazemos em outros meios. Se vamos a um show ou peça de teatro queremos a melhor produção, a melhor interpretação, o melhor cenário e, como qualquer consumidor, faremos, sem culpa, a crítica às falhas que identificarmos. Se a apresentação for espírita aplaudimos produções sem nenhum relevo ou capricho pelo dever da caridade.

Em seminários do campo profissional exigimos qualidade nas apresentações e originalidade nas idéias, todavia nos eventos espíritas aplaudimos a repetição dos conceitos, a falta de originalidade nas construções teóricas e a imitação do estilo de oradores consagrados. Nos Centros Espíritas assistir a reunião pública já é rito obrigatório (embora nos orgulhemos de dizer que não temos rituais), como se assiste missa ou culto. Temas repetitivos e abordagens superficiais, expositores despreparados e quase nenhum uso de recursos que dêem suporte à aprendizagem, são características comuns a quase todas as instituições.

No campo da literatura espírita vivemos uma avalanche de publicações comerciais de baixa qualidade, boa parte auto-intitulada "mediúnica" e não questionamos por atender à rotulação e linguagem padrão. Na hora de comprar livros de autores não espíritas (se é que fazemos isto!) exigimos qualidade e originalidade e o autor nem precisa ter morrido. O conteúdo, afinal, é o mais importante (ou não?).

Vivemos uma complexa dubiedade, com comportamentos distintos, de acordo com o meio (e não estou falando de conduta moral), como se na convivência com outros espíritas entrássemos numa dimensão com outra linguagem, outros padrões, outras regras e aí não vivemos o mundo como ele é (Jesus não recomendou que não nos apartássemos do mundo?) tornando-nos um gueto, um partido, uma casta encaixotada pelos conceitos que deveriam ser rota para a liberdade (Jesus também não disse que o conhecimento liberta?).

Tomamos posse da Doutrina e temos dificuldade de compartilhá-la fora dos modelos comportamentais e de linguagem moldados nos últimos 150 anos. Vale ressaltar que Kardec não escreveu para espíritas (até porque nem existiam ainda), mas para os homens e mulheres da sociedade francesa e européia da época, com uma linguagem universal, rica em comparações e exemplos, sem jargões e acessível a todos de seu tempo.

Quanto ao filme, espero que ele bata recordes de bilheteria por sua qualidade, por um marketing bem feito e pela atuação de atores do quilate de um Vereza. Que o público sinta-se atraído pela própria mágica do cinema que entretém multidões no mundo inteiro e, dessa forma, ficaremos duplamente felizes pela divulgação da vida do extraordinário Bezerra de Menezes e por ver uma iniciativa espírita com capacidade de concorrer e ocupar os espaços da mídia por sua qualidade e pela competência de sua produção.

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